Coturno e salto alto

A revista Void publicou uma matéria sobre o queerpunk, vertente do punk que promove a liberdade de gênero e de sexualidade. Confira abaixo!

Por Gabriel Kverna / Fotos: Gabriel Soares

Aproveitamos a passagem da banda Limp Wrist pelo Brasil para penetrar a fundo no universo de purpurinas e rebites do queerpunk, uma das vertentes mais sexualmente ativas do movimento. Confira também o que rolou no show em Curitiba e a entrevista que fizemos com Martin Sorrondeguy, vocal da banda.

Em sua longa trajetória, o movimento punk sempre cuspiu na cara da sociedade o ódio contra preconceitos e dogmas ligados à religião e à sexualidade. Ver alguém lascando um beijo molhado numa pessoa do mesmo sexo em um show de punk rock ou hardcore nunca foi motivo de surpresa e, muito menos, de piada. Mas para esporrear de vez seus conceitos de liberdade, em meados dos anos 80, o movimento fez surgir uma ramificação que estraçalhou o armário e botou para fora todo um novo cenário cultural.

O queerpunk, também chamado de queercore, nasceu para manifestar o descontentamento em relação à sociedade e à forma como ela rejeitava as comunidades gay, bissexual e transexual. Uma atitude que veio para pregar a liberdade de gêneros com ações libertárias e anticapitalistas, como manda o figurino punk, e em nada relacionadas ao chamado pinkmoney, o comércio voltado ao público gay em geral. Suas principais ferramentas para propagação de idéias sempre foram as letras de músicas, os fanzines e as discussões sobre sexualidade.

No início do movimento queer, o estilo das bandas que adotavam essa postura era conhecido como homocore. Especialmente as bandas feministas, que gritavam e queimavam sutiãs em nome de um ideal libertário para ambos os gêneros e gostos musicais, tiveram grande importância para a formação do cenário. Mas pode-se atribuir ao artista, cineasta e músico canadense G.B. Jones, fundador do fanzine J.D.s (sigla para Juvenile Delinquents), a paternidade do movimento. Em uma das edições do fanzine, que durou de 1985 a 1991, foi publicado um manifesto em resposta a um artigo intitulado “Não Seja Gay”, produzido por outro fanzine da época, o Maximum Rock’N’Roll, e que atacava tanto a cultura punk quanto a cultura gay. Logo em seguida, o J.D.s lançou uma coletânea em fita com alguns dos principais expoentes do queercore da época, como as bandas canadenses Fifth Column e Parasites, a americana Bomb, as inglesas The Apostles, Academy 23 e No Brain Cells, além da Gorse, da Nova Zelândia. Apesar de algum desses grupos não possuírem integrantes homossexuais e nem tratarem do tema em suas letras, eles davam total suporte à causa e por isso levavam o titulo de queercore. Esse cenário evolui ao longo do tempo e novas bandas foram surgindo como Limp Wrist, Youth of Togay,Gayrilla Biscuits, The Dicks, GO!, Fruit Punch, Nick Name, Dominatrixe Teu Pai Já Sabe?. Infelizmente, todas elas ainda muito restritas ao underground e com material sendo encontrado apenas em shows ou nos cantos mais obscuros da internet.

Meu Brasil Varonil


Se no resto do mundo o queercore já arregaçou a porta do armário, no Brasil ainda é fraco e conta com muito pouca visibilidade, restrito apenas a alguns festivais nas cidades de São Paulo, Curitiba e Belo Horizonte. Até hoje, foram poucos os eventos que rolaram para discutir especificamente o assunto, como o Carnaval Revolução, em BH, e o Queerfest, em SP, que promoveram bate-papos, shows, vídeo-conferências e uma série de outras propostas para mostrar o que o movimento tem de relevante.

Um dos poucos coletivos dedicados ao queercore no país é O Marinheiro, de Curitiba, que começou a produzir panfletos, fanzines e materiais independentes que falavam sobre a cultura gay dentro do movimento punk, o que fez com que pessoas de outros estados começassem a se interessar e discutir o assunto. Carlos Tostes, conhecido como Mamá, é um dos idealizadores do grupo. Há muito anos na batalha, o cara fala de peito estufado que o movimento o ajudou com a sua sexualidade e não hesita em dizer que “no punk não há espaço para a homofobia”. Mamá é vocalista de uma das bandas de queerpunk mais conhecidas dos país, a Teu Pai Já Sabe?, e é responsável por muita coisa legal que rola no cenário. Ele nos adianta que possivelmente vai ser realizada uma edição do Queeruption no Brasil, festival itinerante que roda vários países e que conta com shows, discussões e tudo mais que um bom evento punk pode oferecer.

Outra banda que teve Mamá como um dos fundadores foi a Gayohazard, versão brasileira (e gay, é claro) do renomado grupo de hardcore nova iorquino Biohazard. “Queríamos mostrar a versão gay do ‘machocore’”, conta Mamá. Em uma das músicas da banda, intitulada Shades of Gay (versão para Shades of Grey, do Biohazard), a letra falava de uma gangue que saía para as ruas para espancar homofóbicos. Uma espécie de The Warriors com porretes de plumas e paetês. Infelizmente, a Gayohazard não deixou nenhuma gravação para a posteridade, mas lançou a idéia de usar a ironia na hora de batizar uma banda queer. Outras que fizeram versões com nomes de conjuntos gringos foram Youth of Togay (Youth of Today) e Gayrilla Biscuits (Gorilla Biscuits).

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