Sobre o 17 de Maio

Por Lucas Goulart*

Dia 17 de maio, foi o dia nacional de combate à homofobia (em alguns países, dia do combate à homo e transfobia). Essa data comemora a retirada da “homossexualidade” da lista de transtornos psicopatológicos da Organização Mundial da Saúde, que ocorreu em 1990. Se pararmos para pensar a respeito disso, é interessante dar-nos conta do quanto esse “avanço” é recente. Teoricamente, todos os dias que marcam avanços da diversidade sexual deveriam ser celebrados, festejados, marcados como uma conquista da militância. Entretanto, não creio que esse seja o caso do 17 de maio.

Isso porque esse dia demonstra uma das mais sinistras faces da opressão: o poder que certas pessoas e instituições ainda têm em definir, delimitar e rotular as pessoas de acordo com suas sexualidades ou expressões de gênero. É visível ver o quanto ainda é difícil lutar contra um sistema que insiste em marginalizar aqueles que não sejam (ou que pelo menos não ajam como) heterossexuais e cisgêneros, em dizer que essas pessoas ainda são doentes, desviantes, uma má influência. É injusto comemorarmos pelo fim da homossexualidade enquanto doença, quando mulheres e homens transexuais e travestis ainda são considerados doentes, tendo essa marca um gigantesco impacto em sua vida. É difícil comemorar quando a “homossexualidade”, por mais que não seja mais considerada enquanto doença, ainda é citada como “co-morbidade” e sintoma de quadros psicopatológicos. É difícil comemorar quando mesmo lugares que se pautam em ajudar a diminuir o sofrimento de travestis e transexuais ainda exigem laudos psicológicos provando que a construção que essas pessoas fizeram de sua vida e o modo como levam a mesma são “verdadeiras” ou “falsas”. Como militante de direitos humanos e da diversidade sexual, é difícil comemorar.

Entretanto, como psicólogo, creio que o 17 de maio é um dia na qual as ciências psi (psicologia, psiquiatria, psicanálise, psicoterapia) devem, de certa maneira, celebrar. Foi nesse dia em que conseguimos iniciar uma caminhada para nos livrarmos de uma construção de sujeitos herméticos, de uma teoria que pensasse apenas indivíduos, que deveriam se adequar aos padrões sociais, sem pensarmos como o preconceito acaba por adoecer esses sujeitos. Foi nesse dia em que avançamos um pouco mais com o fim do papel de alienistas que ainda mantém nossas profissões, de pessoas com o poder – e com o dever – de rotular, de “curar” pessoas “doentes”, de revertermos os anormais para uma normalidade vista como “saudável” e dotada de sofrimentos mínimos. No dia 17 de maio, os movimentos pela diversidade sexual auxiliaram as ciências psi a serem mais sensíveis, a escutarmos melhor um sofrimento que não provém de um “sujeito desviante”, mas sim do estigma construído por uma norma que é injusta, irregular e cruel. Se o 17 de maio nos ensinou algo, é que as categorias de “normal” e “anormal”, “natural” e “antinatural”, “legítimo” e “ilegítimo” – e todas as construções que provém dessas categorias – devem ser repensadas, desconstruídas e questionadas, pois historicamente podemos ver que elas auxiliaram muito pouco em nosso objetivo: construir uma sociedade onde os sujeitos possam ter sua liberdade subjetiva sem sofrerem com os diversos tipos de violência.

Assim, penso que o dia 17 de maio poderia existir enquanto um dia estratégico para podermos “inverter” os papeis que existem no cotidiano das pessoas não heterossexuais e/ou não cisgêneras: que seja um dia em que possamos analisar, pensar e colocar em xeque até onde instituições de saúde, saúde mental, assistência social e educação estão realmente ajudando a sociedade a diminuir o preconceito, violência e exclusão dessas pessoas.

*Lucas Goulart é doutorando em Psicologia e mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, psicólogo formado pela UNISINOS, desenvolve pesquisas nas áreas de Gênero, Sexualidade e Cibercultura. Atua como voluntário junto ao SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade.

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