Quanto vale o show?

Por Sandro Ka*

A cada dia, cada vez mais, penso que as Paradas têm se perdido em seus propósitos. Principalmente quando perde seu foco e se foca somente no palco, no espetáculo. Num palco onde lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, assim como a própria militância LGBT, têm perdido seu lugar, abrindo espaço a uma série de oportunistas que servem somente a uma causa: a própria. São políticos, artistas B e comerciantes que se apropriaram das Paradas, à medida que estas se deixaram amortizar, entrando numa lógica de mercado, onde têm virado a cada edição, só mais um produto: de manifestação política a show. De militância à produção de evento.

Não que eu seja contrário à forma singular, legítima e genuína que as Paradas desenvolveram e se constituíram, ao longo de mais de 15 anos, se formos contar somente seus anos em terras brasileiras. Tampouco que esteja desvalorizando a riqueza das expressões artísticas e culturais LGBT, pelas quais milito. Reconheço que as Paradas são importantes fenômenos políticos e estéticos que representam a seu modo, com sua festa, com suas cores e com sua ousadia, uma forma de afirmar a cidadania e exigir o reconhecimento dos direitos humanos de pessoas LGBT.

Preocupa-me o fato de ver que a Parada, de forma geral, começa a limitar sua ação somente ao “close”, ao querer aparecer. Ao querer “dar as caras”. E este “dar as caras” não tem nada a ver com aquele outro “dar a cara, a bater”. Dar close no dia da Parada não tem nada a ver com quem dá a cara e o trabalho, dia-a-dia, para tornar as coisas um pouco melhor.

Repensar o formato e os propósitos de uma manifestação deste tipo se faz urgente. Não é algo que se faz da noite pro dia. Significa olhar pra trás e refletir sobre o que foi feito nos anos anteriores. Que estratégias deram certo? A que(m) serviram? No que se transformaram? A que preço? E quanto vale este show? Reavaliar a Parada necessita de um movimento de avaliação crítico e sério sobre a importância e relevância das Paradas, no formato em que se apresentam, nos dias de hoje. Pede por oxigenação e reinvenção. Pede por mudanças.

Fortalecer a ação do corpo a corpo, do desfile e da ocupação das ruas é ainda, o que mais importa num dia de Parada. É o que deve ser o show. Porque, se for para continuar produzindo somente “palco” para brilhar, o Movimento Social pode se aposentar, pois isso, uma produtora de eventos faz bem melhor. Ah, se faz…

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