Pode o subalterno sobreviver?

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por Guilherme Ferreira* e Caio Klein**

Aldaiza Sposati escreveu em 2003, para o livro da pesquisadora Maria Carmelita Yazbek, que a vida e condição do subalterno contém em si uma contradição: apesar de tudo, é uma vida que tem que ser vivida até a última gota do amargo cálice. Essa frase é triste e poderosa; porque é doloroso saber que existem pessoas que vivem em situações de degradação e tão pouco decentes, ao mesmo tempo em que são vidas levadas com luta e resistência. Se esses tipos de vidas “sempre estiveram aí” – basta olharmos para o que é feito com a maioria das pessoas negras de periferia, hiperpoliciadas, tratadas quase sempre como perigosas ou como sujeitos da prisão – atualmente podemos identificar uma ampliação da condição subalterna, que em outras palavras podemos traduzir como aquelas vidas que importam menos para o Estado, que não possuem representação e cujas narrativas ou histórias não são contadas nos jornais.

Em uma de nossas reuniões de planejamento do Somos, decidimos para 2019 retomar a série Pronto, falamos com uma coluna mensal dirigida a destacar o que o atual Governo Federal fez ou previu, mês a mês, que reflete na situação de LGBTs. No entanto, não podemos nos distanciar, esse mês, de todas as situações que nos mostraram como o atual Governo pretende precarizar ainda mais a situação de vida de quem já é considerado subalterno no Brasil, e nesse sentido é claro que não estamos falando apenas em termos de gênero e sexualidade – embora pessoas trans estejam morrendo ou se matando, vocês sabem (ou deveriam saber). A legalização do porte de armas, as novas regras para benefícios assistenciais e previdenciários concedidos pelo INSS (e a dureza com que têm sido tratados os antigos beneficiários, agora passando por um “pente fino” que tem como objetivo cortar o máximo possível de pensões e aposentadorias) e agora a chocante tragédia em Brumadinho, resultado de um crime ambiental fundado em ganância capitalista; tudo isso nos revela a perversidade do Estado em relação à quem não compõe a classe economicamente dominante brasileira.

O resultado disso é uma devastadora desesperança no futuro, que se traduz em morte – como dissemos, pessoas trans têm se matado e têm sido mortas, assim como é fácil encontrar entre jovens das periferias a noção de que não sobreviverão à fase adulta, e isso é o esperado para eles – ou em exílio, para quem tem condições. Recentemente soubemos da decisão de Débora Diniz e de Jean Wyllys em não permaneceram no Brasil; dois intelectuais que vêm pautando o debate do gênero e da diversidade sexual e que, em razão disso, sofrem ameaças à própria vida. O que resta então às bichas, sapatas e travestis que não podem tomar essa mesma decisão?

“Ao ouvi-la dizer que não se relacionava com homens, a jogou para fora do carro e bateu sua cabeça mais de uma vez contra o meio-fio. Quando percebeu que Vanusa estava sem vida, tirou sua roupa e praticou atos libidinosos com o cadáver, pouco antes de escondê-lo.” (narrativa da delegada que investigou o recente assassinato de Vanusa da Cunha Ferreira, em Goiás).

Viver a vida até a última gota do amargo cálice, não importando quais as condições, talvez tenha sido o destino de muitos dos desaparecidos e encontrados mortos na tragédia de Brumadinho. Tragédia que oculta a face de um crime, a aparência que esconde a essência. A última gota desse cálice veio, para essas pessoas, na forma da lama capitalista que só não manteve essas pessoas vivas por uma questão de lucro, não por falta de condições ou tecnologia. A indignação do conjunto da sociedade, entretanto, é seletiva: para algumas pessoas o absurdo é que estejamos vendo mais gente em situação de rua do que antes, agora ocupando as calçadas dos bairros da elite, como nos disse uma senhora moradora do bairro Bom Fim em Porto Alegre: “Essa família vêm todo final de semana pra cá pedir comida, mas o postinho dá camisinha, tiveram filhos por quê? Aposto que trabalhar com faxina eles não querem”.

Enquanto isso um senhorzinho relata em um atendimento no posto de saúde: “Guilherme, agora que eu perdi minha aposentadoria, eu não tenho nada; minha vontade é de sair por aí sem rumo. Ficar na rua, pedir comida”. Uma amiga, pessoa fácil de se admirar e querer bem, escreveu no seu Facebook: “é provável que nós sobrevivamos, mas nós é muito pouco”.

 

Rapidinhas de janeiro:

 

*Guilherme Ferreira é doutor em serviço social e coordena o projeto Passagens – Rede de Apoio a LGBTs nas Prisões. Coordena também o Núcleo de Educação e Saúde do Somos.

**Caio Klein é mestre em ciências criminais e é assistente de coordenação do projeto Passagens – Rede de Apoio a LGBTs nas Prisões. Coordena o Núcleo Jurídico do Somos.

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