Papo Kitsch

Por Bernardo Dall’Olmo de Amorim*

Milan Kundera, em “A Insustentável Leveza do Ser”, trata do Kitsch, analisando o seu sentido original, abstraindo a utilização cotidiana de ideal estético e ausência do abjeto: “O kitsch, em essência, é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal como no sentido figurado: o kitschexclui de seu campo visual tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável”.

Isso mostra que a nossa sociedade tem mais de metafísico do que nossa vã consciência imagina ou supõe. E visualizamos como o kitsch pode ser visto na sociedade quando passamos os olhos na Revista “Estilo Zaffari” e enxergamos na página 38 o texto “papo gay”, escrito por uma publicitária chamada Tetê Pacheco.

Seja quando a cara publicitária está na lanchonete com sua filha, seja quando está na rua onde reside, o abjeto, o inaceitável e aquilo que deve ser excluído do campo de visão da sociedade permeia a vida pós-moderna, foge do campo da invisibilidade para virar merda e arder às narinas da normatividade que nasceu para viver e vivenciar um determinado e específico cotidiano.

O texto utiliza das argumentações de muitos: transitando num linear não-homofóbico (ou o que tenta se interpretar como, afinal há uma repetição de um silogismo cotidiano de “tenho amigos gays, logo não tenho preconceito”) até uma busca de finalmente oprimir com o poder estatal, já opressor.

As “atitudes desrespeitosas” relatadas no presente texto por travestis, transexuais e homossexuais retratam a necessidade de transformar (ou regredir) uma visibilidade de pessoas que passam as vidas marginalizadas, acostumadas à inexistência de garantias em kitsch.

Todos e todas queremos direito, educação e respeito às garantias. Mas também queremos e devemos buscar que o poder público, antes de cobrar, oprimir e institucionalizar impostos ou regular condutas, que conceda garantias, afirmações e o direito de uma expressão que há muito são merda. Assim como devemos, individualmente, entender por que determinadas condutas nos chocam. Onde, como e com que base filosófica e moral somos criados/as e condicionados/as para ver tais condutas como kitsch.

Assim, quem é moralmente e socialmente inaceitável é atirado ao vazio, e a negação absoluta da merda não é nada mais do que um par de óculos usado pela condição normativista que, quando avista o que interpreta como kitsch, só queria enxergar o preto do vazio.

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