Igualar por baixo? Depende de quem está em cima

Por Aline Galvão*

O século XXI tem sido marcado pelas lutas emblemáticas por direitos e igualdade das mais diversas minorias. Aparentemente as mulheres conquistaram um direito à igualdade que supostamente deveria se fazer valer em um artigo da Constituição Federal e mais além, uma lei específica que a protege de todos os tipos de violência, conseguiu mais espaço no mercado de trabalho, mais espaço no cenário político, mais tempo de licença maternidade, temos uma mulher presidente (ou presidenta, como a consciência gramatical preferir) deste país, temos uma mulher no FMI. Tá bom assim? Será que a mulher conseguiu de fato, sair do âmbito privado para o público e se libertar do estigma limitador e exclusivo de cuidadora, educadora, dona-de-casa e coadjuvante? Saindo do viés econômico e político (macroestrutura) e adentrando no aspecto subjetivo e identitário do ser humano (microestrutura), reflitamos: estes aportes legais de proteção à mulher e estas representações femininas de ordem macroestruturais fizeram com que a sociedade de fato aceitasse a desconstrução do papel severamente destinado à ela pela cultura patriarcal? Ou tudo isso não foi eficaz para que a mulher seguisse batalhando contra uma relação de dominação persistente? Porque às vezes as leis não educam, não mudam certas mentalidades.

Desde a década de 80 acompanhamos o aumento da exploração da temática da liberdade sexual feminina, da liberdade reprodutiva, do prazer feminino, ponto G e afins. Mas então, por que o sexo ainda é tratado com tanta culpa pelas mulheres? Será esta “liberdade” sexual feminina uma falácia? Em qualquer ambiente, até mesmos os que deveriam nos ensinar a exercitar o livre pensamento, como as universidades, vemos se reproduzir o mesmo discurso moralista: “na busca da igualdade, as mulheres confundiram liberdade com libertinagem”, ou então, “as mulheres estão promíscuas por quererem se igualar por baixo com homens”.

Um bom exemplo de muitos é a indústria pornô, onde supostamente existe uma liberdade sexual, só há espaço para o prazer masculino. Em alguns destes filmes raramente vemos uma mulher desfrutar de um belo e sonoro orgasmo. O que vemos é uma mulher silenciosamente se retorcendo ao gosto do parceiro enquanto o homem pinta e borda. Afinal, por que quando a sociedade aborda a liberdade feminina e igualdade de gêneros, se abre uma grande exceção para com o sexo? Por que a livre manifestação do desejo feminino, a livre busca pelo sexo sem compromisso é ainda tão controversa? Ora, a mulher conseguiu a igualdade, está na lei! Mas por que esta igualdade em particular ainda é tão negada à mulher?

Retrocedemos ao mesmo princípio patriarcal que prega, convenientemente, que a livre busca pelo sexo é um defeito masculino que não deve ser copiado, que a mulher tem que se resguardar, pois o sexo e prazer em demasia (a famigerada “promiscuidade”) desvalorizam a mulher. No fim das contas, a igualdade do desejo ainda é negada de forma veemente às mulheres. Me pergunto até quando esta relação de poder conservadora continuará enaltecendo o discurso hipócrita de que a mulher deve imitar o homem apenas em seus grandes feitos, nas suas qualidades, nas suas virtudes e não tentar se igualar “por baixo”. Esta negação da liberdade plena à mulher, cerceada por uma moral cristã persistente, nos faz constatar que, mantendo-as sob esta vigilância, o espírito do Brasil pré-industrial da década de 30 ainda está muito presente em plena quarta geração de Direitos Humanos, que mantém instituído o papel feminino da castidade como uma virtude essencial e quase que inata da mulher.

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