Há algo de novo no reino da militância?

Por Luiz Felipe Zago

Será possível que, através da militância, façamos aparecer algo de novo – de realmente novo – no nosso monótono e entediante dia-a-dia de ongueiros/as?

Talvez essa atitude – de fazer fulgurar o novo – implique em “procurar chifre em cabeça de cavalo”, ou seja, talvez implique em “buscar sarna pra se coçar” ou em “achar cabelo em ovo”. Sem dúvida que sim. Faz parte da emergência do novo a criação de novos problemas. E, uma vez diante de novos problemas, que possamos criar novas soluções: mas aí já não estaremos mais diante do novo; o novo deixará de ser novo para ser problema; e o problema já deixará de ser problema para ser um case de sucesso, um modelo, um manual e um guia: algo a ser copiado. E o novo, aquela coisa inesperada, aquele corpo imprevisto, deixa de ser novo e já posa para fotos e vai para capas das revistas, sorridente para os flashes que lhe dirigem. Então, não é apenas de novas soluções que precisamos enquanto militantes: muito além de novas soluções, precisamos de novos problemas.

Precisamos de novos chifres, de novas sarnas, de novos cabelos. Não adianta recorrer à humanidade como sendo uma identidade que nos une: a humanidade é desde sempre uma categoria normativa, pois nem todos/as são considerados/os igualmente humanos. Do contrário, não precisaria haver militância. Assassinatos por motivos torpes, casamentos de circunstância, adoções de cunho filantrópico, declarações de imposto de renda compartilhadas: são conquistas, é claro. Mas são novas (novas?) soluções para os mesmos problemas: para a violência, para o matrimônio, para a família, para a economia. E nessa espiral de mesmos problemas, entramos na zona de um silêncio profundo onde o novo naufraga. Para quem ainda não militamos? Que corpos estão, desde já, expulsos da categoria de humanidade? Quais agentes financiadores nos pagam para promover que tipos de atividades, de que tipos de projetos, para quais “públicos-alvo”? Em quem miram os direitos humanos (com letras minúsculas, porque são minúsculos) que promovemos? É muito difícil de fazer aparecer o novo, nos é custoso, exige atenção redobrada. Pois o novo surge lá onde é cinza e nebuloso, onde os pés tocam o chão. Contudo, uma boa maneira de pressenti-lo é duvidar dos cases de sucesso, dos corpos que gentilmente posam para os flashes. Esses não são novos. São velhas soluções.

A militância coçando-se sempre por causa das mesmas sarnas; encontrando sempre o mesmo chifre na cabeça de vários cavalos; colocando as mesmas perucas em diferentes ovos. E há aqueles/as que nos acenam lá do alto de seus postos influentes, do alto de suas trajetórias incontestáveis, perguntando se aqui embaixo está muito quente. Daqui de baixo nós lhes respondemos com um riso de deboche, junto com o filósofo das longas unhas: há algo de novo na militância, de profundamente novo, que tem a beleza daquilo que eles/as lá no alto não são capazes de – e nem querem – enxergar: uma manhã de festa.

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