Vaticano repreende freiras dos EUA por ideias ‘feministas radicais’

Membros da Conferência de Liderança das Mulheres Religiosas durante encontro em Denver em 1963 (Foto: Divulgação)

O Vaticano nomeou um bispo americano para conter o maior e mais influente grupo de freiras católicas nos Estados Unidos. Motivo: “sérios problemas doutrinários”, dentre eles, a defesa de ideias “feministas radicais incompatíveis com a fé católica”. A Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas, diz a Santa Sé, também desafiou a doutrina da Igreja acerca da homossexualidade e do sacerdócio exclusivamente masculino.

O grupo é uma organização das comunidades religiosas femininas americanas composta por 1.500 membros e representa 80% das freiras dos Estados Unidos. A Conferência foi formada em 1956, a pedido do próprio Vaticano, segundo a irmã Annmarie Sanders, diretora de comunicação.

As irmãs estão sendo repreendidas por fazerem declarações públicas que “vão contra os bispos, autênticos mestres de fé e moral da Igreja “, segundo a acusação. Durante o debate sobre a reforma da saúde encampada por Barack Obama em 2010, bispos americanos discordaram do plano. Dezenas de irmãs, muitas delas pertencentes à Conferência de Liderança, foram a favor, dando um apoio crucial ao presidente americano em sua batalha pela alteração legislativa.

Grupo se diz espantado

A decisão do Vaticano surpreendeu completamente a organização, disse a irmã Sanders. Nesta quarta-feira, as líderes do grupo estavam em Roma, no que pensavam ser uma visita de rotina anual ao Vaticano. Entretanto, acabaram informadas do resultado da investigação iniciada em 2008 sobre as práticas da Conferência.

“A presidência da Conferência de Liderança de Mulheres Religiosas está espantada com as conclusões da investigação doutrinária”, diz um comunicado, adiantando que deve dar uma resposta mais completa no futuro.

— Estou surpresa —desabafou a irmã Simone Campbell, diretora executiva da Network, outra organização citada no relatório da investigação feita pelo Vaticano. O movimento fundado por freiras foi criticado focar o seu trabalho demasiadamente na pobreza e na injustiça econômica, mas mantém “silêncio” o aborto e o casamento gay. — Imagino que foi nossa posição sobre a saúde que os deixou chateados. Nós não violamos nenhum princípio. Apenas levantamos questões e fazemos interpretações políticas — completa Simone.

O veredito sobre o grupo das freiras foi dado pela Congregação do Vaticano para a Doutrina da Fé, que hoje é liderada por um americano, o cardeal William Levada, ex arcebispo de São Francisco. Ele indicou o arcebispo J. Peter Sartain, de Seattle, para chefiar o processo sobre a conferência das irmãs.

Um prazo de cinco anos foi dado a Sartain e outros dois bispos para revisar os estatutos da Conferência de Liderança das Mulheres Religiosas, aprovar cada orador dos programas públicos da organização e substituir o manual utilizado pelas irmãs para facilitar o diálogo em assuntos que, para o Vaticano, são doutrinas estabelecidas. Os religiosos também devem analisar as ligações da Conferência com a Network e uma terceira organização, o Centro de Recursos para a Vida Religiosa.

‘Ação era previsível’

Questões doutrinárias têm sido as mais importantes durante o papado de Bento XVI, que foi responsável pelo escritório doutrinal do Vaticano antes de se tornar Pontífice. As freiras americanas, especialmente, têm estado sob investigação. No ano passado, bispos anunciaram que um livro de uma popular teóloga da Universidade de Fordham, a irmã Elizabeth A. Johnson, deveria ser removido de todas as escolas e universidades católicas.

Além disso, ao mesmo tempo em que analisava o caso da Conferência de Liderança, o Vaticano conduziu uma investigação paralela de todas as ordens e comunidades de mulheres religiosas dos Estados Unidos. Esse inquérito, conhecido como “visitação”, foi concluído em dezembro do ano passado, mas os resultados não foram divulgados.

Acadêmicos que estudam a Igreja dizem que a ação do Vaticano era esperada, em razão das visões conservadoras do Papa Bento XVI e dos esforços de Roma para acabar com dissidências internas e reduzir a autonomia de seus subordinados.

— É mais uma expressão do sentimento da Igreja de estar encurralada por tendências que não consegue controlar dentro da própria Igreja e muito menos na sociedade como um todo — diz o historiador Scott Appleby, da Universidade de Notre Dame.

Fonte: O Globo

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