Programa de saúde da Fifa traz visão moralista sobre prevenção de HIV/aids

Programa ’11 pela saúde’, da Fifa, ensina hábitos “saudáveis” em escolas públicas. Abstinência sexual e fidelidade estão entre as recomendações para prevenção de HIV/aids. Especialistas consideram o conteúdo e a concepção de promoção à saúde e de currículo um retrocesso

Quando as manifestações nas ruas gritaram que, em vez de Copa, queriam mais saúde e educação, talvez não soubessem que a Federação Internacional de Futebol (Fifa) está atuando também nessas áreas. Continuando uma ação iniciada na África do Sul, em 2010, com o objetivo de deixar um “legado médico” para o país, a Fifa está promovendo no Brasil o programa ’11 pela saúde’, que visa “ajudar os jovens” do país a “viver uma vida saudável”. Legitimado por uma parceria dos ministérios da Saúde, Educação e Esportes, o programa apresenta conteúdos de saúde e abordagens educacionais que, segundo diversos especialistas, vão na contramão das políticas e das demandas da sociedade civil organizada no Brasil. “A parceria com a Fifa está dada no âmbito de todos os demais ministérios. Trabalhar na perspectiva de ter legados para a saúde e a promoção se colocar como um desses legados é importante para o ministério da saúde e para o governo brasileiro”, explica Débora Malta, coordenadora geral de vigilância de agravos e doenças não transmissíveis do Ministério da Saúde, responsável pela articulação com o programa.  Carlos Eduardo Batistella, professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz), que estuda currículo, principalmente na área da saúde, discorda: “É de estranhar que os Ministérios da Saúde e da Educação não tenham obstado essa iniciativa, uma vez que a construção de políticas de saúde e educação no país já nos autoriza a considerar que não precisamos de auxílio iluminado para estabelecer um ‘programa de educação séria sobre saúde’, como anuncia a Fifa no material do programa”.

O “currículo” do programa é dividido em 11 sessões que associam um tema sobre futebol a uma mensagem sobre saúde, cada um trabalhado em 45 minutos, representando dois ‘tempos’ de uma partida de futebol. No Brasil, uma versão piloto do programa foi aplicada em Curitiba e agora esses professores estão treinando os outros. O material de referência é o Manual do Treinador, que orienta detalhadamente o professor sobre cada atividade que ele deve desenvolver com os alunos, determinando inclusive o número de minutos que cada etapa deve levar. “O grau de prescrição de comportamentos chega a níveis absurdos, onde se propõe a criação de ‘círculo de elogios’ e a ‘lista de controle’ determina cada passo da preparação das sessões, seus tempos e movimentos”, analisa Batistella.

O destino final dessas mensagens de saúde são alunos de 11 e 12 anos de escolas públicas das cidades-sede da Copa do Mundo do Brasil. “A simples denominação do material como ‘Manual do Treinador’ já nos remete a duas questões bastante críticas no campo da educação: de um lado, assume uma perspectiva de forte diretividade, já que o uso do termo ‘manual’ quer restringir a atividade docente à mera implementação de um currículo prescrito, negligenciando a ação pedagógica como possibilidade de reconstrução de conhecimentos e sentidos. De outro, transparece uma visão de educação como adestramento, numa perspectiva comportamentalista que, nos últimos anos, tem sido reanimada – com nova roupagem – pela pedagogia das competências”, critica Batistela.

2089446_FULL-LND

Ação foi iniciada na África do Sul, na Copa do Mundo de 2010

A mensagem mais polêmica – embora não seja a única – é a que, junto com o uso de camisinha, indica a abstinência sexual e a fidelidade como formas de prevenção ao HIV/Aids. O Ministério da Saúde garante que, na revisão que fez do material utilizado na África, retirou essas orientações. Débora reitera que a política brasileira investe apenas na prevenção por meio de preservativos. Mas o fato é que elas permaneceram na versão final do ‘Manual do Treinador’, utilizado para treinar os professores que, por sua vez, reproduzirão com os alunos o conteúdo e a dinâmica didática que aprenderam . Perguntada sobre o que uma instituição que tem essa concepção de promoção e prevenção à saúde tem a ensinar às crianças brasileiras, a coordenadora do Ministério da Saúde afirmou que “toda parceria é bem-vinda” e legitimou o conhecimento técnico da Fifa nessa área. “O mote da Fifa realmente é o futebol mas ela se valeu de especialistas. Ela tem discutido isso com a OMS [Organização Mundial de Saúde] há anos. O desenho está de acordo com os eixos da OMS na priorização das doenças crônicas não-transmissíveis”, diz. Para Batistella, a interferência da Fifa em ações de educação e saúde tem objetivos bastante específicos: “Numa época em que todo mundo educa, a Fifa aparece como a nova candidata ao posto de instituição educadora aos países subdesenvolvidos. Por trás da aparente benevolência dos países centrais, repete-se o velho mecanismo de colonização que já acompanhou a Europa na invenção do oriente: o recurso ao estereótipo, a padronização de condutas servis, a disseminação de valores desejados para a manutenção do sistema”.

Abordagem moralista

Na sessão sobre HIV/Aids, o programa ensina as formas de transmissão, destacando que ninguém se contamina no toque ou no olhar, por exemplo. Na ficha de informação que vem ao final da sessão, explicando o que é o HIV e como ele afeta o corpo, as duas formas de prevenção apresentadas são o uso de preservativos femininos e masculinos para todos os tipos de relações sexuais e o não compartilhamento de agulhas e seringas. Mas na descrição do “cartão de atividades” e no resumo das mensagens-chave, a cartilha repete o conteúdo que foi aplicado na África do Sul, quatro anos atrás: “Você pode proteger-se do HIV abstendo-se de sexo tanto quanto possível, ser fiel a um (a) parceiro (a) não infectado (a), ou usar um preservativo corretamente todas as vezes que tiver relações sexuais”. “Isso é um retrocesso na política de prevenção à Aids”, diz o assessor de projetos da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), Juan Carlos Raxach. Ele explica que a fidelidade teria que ser mútua, por isso, ser fiel não é suficiente porque requer a confiança na fidelidade do outro também. Já sobre a abstinência, ele questiona as consequências, inclusive psicológicas, que a falta de sexo pode trazer para a saúde. Por isso, diz, conseguiu-se imprimir na política brasileira o uso de preservativo como o método de proteção no que diz respeito à transmissão por via sexual. Segundo Juan Carlos, essa abordagem, que carrega uma perspectiva religiosa sobre a doença, foi levada para países da África e da América Latina, inclusive o Brasil, na década de 1990, pela Usaid (U.S. Agency for International Development). “Nós lutamos muito e conseguimos banir isso de todos os documentos brasileiros. O que a Fifa defende contraria tudo o que nós entendemos como direito humano”, diz. No continente africano, onde esse programa foi aplicado pela primeira vez, no entanto, a presença e a influência da Usaid ainda são muito fortes.

Trechos do texto “O legado da Fifa na saúde e educação”, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. Leia na íntegra.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *