Marcha, seminários, PLC122 e resultados

O movimento foi partidarizado, agora colhe o frutos.

Por Marcelo Gerald

Entre avanços, retrocessos e dificuldades do movimento LGBTs chegamos ao meio de uma semana rica em acontecimentos que devem influenciar o futuro da militância no país.

Os grandes destaques foram os seminários de Marta Suplicy (PT-SP) e outro da Frente Parlamentar LGBT, com Jean Wyllys (PSOL-RJ), Erika Kokay (PT-DF), Fátima Bezerra (PT), Newton Lima (PT), Tersa Surita (PMDB), Paulo Rubem Santiago (PSB), Manuela Dávila (PC do B), entre outros.

O seminário de Marta, “Diferentes mas Iguais”, discutiu o combate à homofobia e a importância do PLC122, o evento teve como destaque vários depoimentos emocionantes e a criminalização da homofobia ganhou apoio dos Senadores Ana Amélia (PP-RS) e o senador Agripino Maia (DEM-RN). A militância entregou à Senadora texto solicitando a aprovação do PLC122, versão da ex-Senadora Fátima Cleide (PT-RO), que coloca a homofobia com mesmo peso de várias outras discriminações como o racismo e a intolerância religiosa. Assista parte do seminário, em que Alexandre Melo F Bahia expôs a necessidade do projeto de lei, aqui. Participaram também Paulo Iotti e Thiago Fiago, que já escreveram vários artigos para o site do PLC122.

O destaque do seminário ministrado pela Frente Parlamentar LGBT, “Respeito à Diversidade se Aprende na Infância”, foi a homofobia nas escolas. O evento contou com participações marcantes das Mães Pela Igualdade, de representantes dea UNESCO, da UNICEF e de Ongs. Lena Franco da ONG ECOS destacou que a percepção da homofobia é muitas vezes maior entre alunos que professores. Várias críticas foram feitas sobre o veto de Dilma ao programa de combate à homofobia nas escolas. Jean Wyllys declarou: “”A politica foi suspensa devido à pressão de forças políticas aqui dentro do Congresso. Infelizmente, a presidente Dilma cedeu. A mídia também abraçou os argumentos fundamentalistas. Primeiro, criticaram a estética do material, depois questionaram a necessidade de algo específico sobre a homofobia. Ora, porque essa prática é mais comum nas escolas do que outras formas de discriminação, como mostram as pesquisas”. O material produzido nesse seminário foi muito rico, e vale a pena assistir na íntegra aqui.

O mais próximo que a causa LGBT chega perto da Dilma é assim - Marcos Oliveira

O partidarismo de grande parte da militância finalmente reflete no enfraquecimento da causa.

Que parte do movimento LGBT se tornou representante do Partido dos trabalhadores acima de qualquer luta ninguém duvidava, mas acontecimentos e fatos dessa semana desenham pra quem ainda não tinha acordado.

Marta Suplicy fez questão de marcar o seu seminário no mesmo dia e horário do seminário da Frente Parlamentar, passando a impressão que há uma rixa entre ela e Jean Wyllys e foi apoiada pela ABGLT, na entidade há parte do setorial petista que em suas atitudes torna essa luta partidária. O seminário ministrado pela Frente chegou a sua nona edição e tem sido construído em tom democrático e já estava agendado há muito tempo.

O resultado disso poderia ter sido o esvaziamento do seminário da Frente, o que não aconteceu, mas evidenciou, até mesmo pra bancada teocrática, que temos hoje no Brasil um movimento frágil e dividido em algumas questões.

Nem Marta e nem a ABGLT apoiam oficialmente a PEC do Casamento Igualitário.

Os tempos mudaram e a ABGLT não se atualizou, a militância cresceu e muitas coisas hoje acontecem de forma mais dinâmica. Antigamente não tínhamos tantas pessoas informadas sobre o que era homofobia, agressões, PLC122, hoje temos mais agentes participando desse debate, mas ainda não é suficiente, acreditem dois anos atrás eu perguntei a várias pessoas na maior Parada Gay do mundo, se essas apoiavam o PLC122 e se eram contra a homofobia e MUITOS não sabiam do que eu estava falando. Cheguei a receber ameaça ao perguntar pra um homem se ele assinaria contra a homofobia. Ele pareceu ter entendido que seria contra a homossexualidade, por não ter noção do que era homofobia.

As demandas do movimento aumentaram, não podemos mais falar que um LGBT busca apenas por visibilidade, nós falamos de Direito, de igualdade e soma-se a isto as mudanças em nossos países vizinhos, Argentina e Chile nos dão aula de tolerância e de amadurecimento relacionados a Direitos Humanos. Nos EUA o presidente declarou apoio ao casamento Igualitário e no Brasil temos uma presidenta que NUNCA marcou uma reunião com o movimento LGBT, não esteve presente na conferência e nem na semana contra a homofobia, vetou programas que ajudariam combater a intolerância e dá constantemente declarações que reforçam o fundamentalismo teocrata, porque bato nessa tecla aqui nesta nota? Simples, a imagem da ABGLT se confunde atualmente com a do PT e com a do Governo e temos hoje um governo que não faz absolutamente nada que favoreça LGBTs, a não ser uma ou outra nota da SDH.

A ABGLT, enquanto entidade representativa do movimento, está enfraquecendo. Não sei dizer ao certo quando esse processo se iniciou, mas talvez tenha ganhado força quando a entidade apoiou o golpe dos teocratas, junto com Marta Suplicy e Demóstenes contra o PLC122, na época tentaram aprovar um texto inócuo contra a homofobia. O discurso do momento era: “vamos votar, pois é o que dá pra aprovar”.

Hoje, várias fontes me informaram que a marcha contra a homofobia foi um fracasso, poucas pessoas participaram e o trajeto dos foi bem pequeno. Para piorar apenas três Deputados compareceram ao evento, todos do PSOL: Jean Wyllys, Chico Alencar e Rodolfe Rodrigues e se não fosse os ativistas do PSB e da Diversidade Tucana a marcha teria sido ainda mais esvaziada.

Isso pode ser reflexo de enfraquecimento e da exclusão que a alguns dos representantes da entidade promovem nas redes sociais, com afirmações e acusões do tipo: “Vocês são sectários, vocês são tucanos, vocês não são militantes”. O mal estar gerado nessas redes refletiu também no fracasso do twitaço chamado pela entidade em apoio a marcha. Não chegou a nenhum trading, o motivo é tão óbvio que fico constrangido de escrever, nenhum perfil de destaque do Twitter foi contatado previamente e os que fizeram a chamada pouco twittaram.

Os tempos mudaram, os fracassos recentes mostram que o movimento precisa repensar muita coisa. Precisa ocupar todos espaços, a luta deve estar em toda a parte, nas ruas, nos nossos bairros, nas redes sociais e todos ativistas devem ser valorizados, nenhum corpo funciona bem sem seus órgãos e nenhum destes sem suas células. Não há espaço pra uma entidade que apenas dita as regras, decide o que é bom e diz como as coisas devem acontecer e simplesmente nada acontece. A luta não deve ser a de um partido mas por uma causa. Não dá pra apoiar somente o projeto de um partido e excluir o de outro.

A ABGLT tem limitações e isso é natural em qualquer entidade, mas precisa se modernizar repensar e com urgência. Partidarismo, soberba e oportunismo político só levará militantes ao fracasso em suas ações.

Marta disse que o PLC122 só será discutido em 2013 e quando tiver chance de aprovação. Alguém entendeu o recado? Em 2013 faltará apenas um ano para o projeto estar definitivamente arquivado. De qualquer forma, a Senadora desta vez acertou em ouvir a demanda do movimento e valorizar o texto de Fátima Cleide, coisa que deveria ter feito desde que assumiu o projeto.

Li no Portal Vermelho que uma das reivindicações de militantes era a cassação de Bolsonaro (PP-RIO) não entendi o porquê dessa distração nesse momento. O PT já demonstrou que não fará nada contra, o Deputado Paulo Teixeira, líder do partido na Câmara, havia afirmado no Twitter que processariam o deputado por chamar a presidenta de lésbica, mas nada foi feito e nem a chefe do Executivo se pronunciou. Bom lembrar que o PP está em campanha como aliado da presidenta.

Para terminar os fatos da semana, deputado do PR afirmou que evangélicos sofrem dura perseguição de LGBTs, não se sabe de onde ele retirou esses dados, não temos notícias de mortes ou de evangélicos que tenham medo de andar nas ruas, pelo contrário, quem afirma ser inimigo número um da causa gay são alguns deles e ultimamente a demanda da bancada teocrata é a de lutar contra direitos de homossexuais, aparentemente nada além disso.

A parte divertida nisso tudo foi ver o Deputado Marco Feliciano arranhando no inglês ao tentar puxar conversa com o presidente Obama no Twitter, depois dessa anotem, em breve teremos a série teocrática intitulada “The Família”.

Fonte: PLC 122

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