Manifestação criativa leva gays a doarem sangue no Piauí

O Grupo Matizes e a Liga Brasileira de Lésbicas (LBL) realizaram no ultimo dia 31 um protesto no Hemocentro do Piauí (HEMOPI), denunciando à sociedade teresinense o caráter discriminatório da Resolução nº 153/2004 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que proibe homens gays e bissexuais de doarem sangue. A atividade faz parte da Campanha “Nosso sangue pela igualdade”, lançada pelas entidades há uma semana. Durante o ato, lésbicas, familiares de LGBT e parceiros do movimento LGBT doaram sangue e se cadastrarem como doadores de medula.

Militantes do Matizes e da LBL distribuiram material educativo e também preservativos para as pessoas que se encontravam no local. Segundo Herbert Medeiros, militante do Matizes, o ato superou as expectativas das entidades organizadoras. “A receptividade das pessoas foi muito boa. O número de doadores superou nossa previsão. Agora, outras ações virão por aí. Nossa ideia é entregar ao Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, um documento reivindicando a revisão da Portaria da ANVISA, porque entendemos não existirem razões técnicas para mantê-la e porque essa proibição atenta contra vários princípios constitucionais”, explica Herbert.
Já Priscila Santana, uma das familiares de LGBT que compareceram ao HEMOPI, a reivindicação do Matizes e da LBL é justa e oportuna. “Eu e alguns amigos estamos participando do ato porque entendemos que a orientação sexual não deve ser critério impeditivo para o exercício do ato solidário de doar sangue e salvar vidas”, assevera Priscila.

O coordenador-geral do SOMOS Luiz Felipe Zago acrescenta que a manifestação é pertinente “Acredito que esta forma de protesto é atual, criativa e carregada de significado político. O grupo Matizes e a Liga Brasileira de Lésbicas conseguiram marcar suas posições contrárias à Resolução da ANVISA que proíbe homens gays e outros HSH (homens que fazem sexo com homens) de uma maneira contundente e numa data estratégica: quando protestamos contra essa Resolução, normalmente acabamos por dar visibilidade apenas aos homens gays que são impedidos de doar sangue. Entretanto, deixamos numa espécie de sombra política às pessoas trans, às travestis, ou até mesmo aos homens gays afeminados no que diz respeito ao direito que essas pessoas têm de doar sangue – porque um homem gay masculinizado pode perfeitamente fazer a doação sem ser questionado sobre sua sexualidade, já que não ‘aparenta’ um certo estereótipo. Além disso, é importante de pensarmos sobre o que significa essa proibição: sempre há alguma matéria em algum jornal ou telejornal que mostra a escassez de sangue nos estoques dos hospitais. Impedir as pessoas que voluntariamente queiram doar seu sangue é cassar um direito fundamental d@s cidad@s, qual seja, o de ajudar alguém que está em dificuldade. Essa Resolução acaba por tornar abjeto o sangue dos homens gays e HSH e, no limite, seus corpos e suas cidadanias. Justamente por isso a manifestação é totalmente pertinente e interroga a ética na qual se baseiam as relações que estabelecemos com a alteridade na nossa sociedade”.

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