Kevin Truong: fotógrafo viaja o mundo para retratar histórias de homens gays

The Gay Men Project é um projeto online do fotógrafo Kevin Truong para capturar as identidades de homens gays em diferentes partes do mundo. Com imagens cotidianas e humanizadas, Kevin procura contar histórias. A partir da subjetividade,  cada entrevistado responde “o que é ser gay” e fala sobre sua descoberta da sexualidade. Para o fotógrafo, a ideia é relatar não apenas o “mundo gay”, mas a diversidade de histórias que as pessoas podem oferecer.

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O fotógrafo Kevin Truong decidiu fotografar homens gays ao redor do mundo para mostrar a diversidade de suas histórias. Para ele, é preciso enxergar o indivíduo por trás de cada uma delas.

A ideia inicial era fazer um projeto pessoal, mas o “The Gay Men” acabou se expandindo e, hoje, Kevin busca por contribuições de pessoas ao redor do mundo interessadas em fazer parte do trabalho. O fotógrafo contou mais sobre suas inspirações e objetivos com o Projeto em entrevista para o jornal Huffington Post. Fizemos uma tradução livre da entrevista, confira:

Huffington Post: Conte mais sobre você e como se tornou um fotógrafo.

Kevin: Minha mãe é imigrante, do Vietnã, e eu nasci em um campo de refugiados em Kuala Lumpur, na Malásia. Depois, nós nos mudamos para Oregon, nos Estados Unidos. Eu me formei em economia e trabalhei para organizações sem fins lucrativos por alguns anos, o que me levou a trabalhar para o Corpo da Paz [The Peace Corps] quando tinha 26 anos. Esta experiência me levou ao interesse pela fotografia e coincidiu com a minha identificação como gay.

Huffington Post: Como?

Kevin: Durante minha experiência no Corpo da Paz, fiquei em Belize [na América Central], um país onde é ilegal ser gay. Quando eu descobri isso, imediatamente contatei o Corpo da Paz e perguntei o que eu deveria fazer. O ‘Peace Corps’ é o “pai” das organizações sem fins lucrativos e eles me encorajaram a ir em frente. Eu esperava que eles estivessem certos e que tudo fosse fácil de administrar, mas como eu recém havia me assumido para a minha mãe, voltar a um lugar onde eu deveria ser “discreto” era mais fácil na teoria do que na prática.

Huffington Post: Deve ter sido difícil.

Kevin: E foi! Eu amava a família que me acolheu, mas não conseguia me abrir com eles, que seguiam tentando me arranjar com a filha deles e me levar à igreja. Eu precisava ser quem eu sou.

Huffington Post: Então você voltou para casa?

Kevin: Sim, mas a parte mais difícil foi que eu havia planejado ficar fora por dois anos, e lá estava eu, de volta apenas dois meses depois. De repente, me encontrei sem nada para fazer. Para a viagem, comprei uma câmera nova, então pensei: “Bem, eu posso fazer algumas aulas de fotografia e aprender como usar a câmera”, e descobri que eu realmente gostava daquilo. Me inscrevi para o Pratt Institute no Brooklyn e me mudei para Nova York. Quatro anos depois, consegui outro diploma!

Huffington Post: O que moldou seu estilo fotográfico?

Kevin: Ter começado na fotografia um pouco tarde na vida e todas as experiências que tive com o mundo das organizações sem fins lucrativos realmente moldou o estilo de fotografia pelo qual me interesso em fazer. Muito da escola de artes é sobre aprender como ser um artista e quem eu sou tem muito a ver com a ideia de comunidade. O “The Gay Men Project” une perfeitamente estes dois conceitos e me possibilita casar duas paixões.

Huffington Post: Você comentou sobre se assumir para sua mãe. Como foi a sua experiência de descoberta da sexualidade?

Kevin: Eu sabia que era gay há muito tempo, mesmo que eu não conseguisse expressar isso em palavras. Eu lembro de ter 8 anos de idade e, nas aulas de natação, ver pessoas peladas no vestiário. Não era uma experiência sexual, mas uma curiosidade. Mesmo assim, eu tinha na minha cabeça a ideia de que um dia me casaria com uma mulher, porque era como as coisas eram feitas. Só aos 19 anos tive minha primeira experiência com outro homem e, mesmo naquela época, eu pensava que casar com outra mulher ainda era a possibilidade. Foi somente depois da faculdade, quando me mudei da casa dos meus pais, que finalmente me assumi como um homem gay. Antes de deixar Portland, contei a todos os meus amigos próximos que era gay e, nos anos seguintes, à minha irmã e minha mãe. Finalmente senti que havia me tornado quem eu queria ser.

Huffington Post: Você começou o “The Gay Man Project’ como um blog. De onde veio a inspiração para ele?

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Sheldon, Washington

Kevin: A ideia surgiu depois de contar que era gay para a minha mãe. Estávamos sentados de frente para o outro na mesa da cozinha e eu disse: “Mãe, sou gay” e ainda lembro o olhar confuso no rosto dela. Depois, ela me disse que a razão dessa confusão é que ela estava imaginando se eu pareceria diferente. Aos 57 anos, a minha mãe, uma mulher do Vietnã, não tinha referências. Eu estava familizariado com o Catherine Opie’s Domestic projet , que captura a comunidade lésbica, e eu decidi que queria fazer o mesmo tipo de coisa com os homens gays. Eu queria fotografar o máximo de homens gays, com o máximo de diversidade possível, para mostrar a pessoas como a minha mãe que não há necessariamente “um olhar”, apenas. Meu objetivo é que as pessoas os enxerguem como indivíduos. Como uma das pessoas que fotografei disse: “Para mim, ser gay significa nada e tudo ao mesmo tempo”.

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Carlos e Ivan, Los Angeles

Huffington Post: Como você começou?

Kevin: Eu comecei fazendo com filme e impressões como parte das minhas tarefas de aula. Eu trazia as fotos para mostrar aos colegas e o mais interessante é que, quando gostavam das fotos, queriam saber as histórias por trás delas. Eu percebi que precisava de uma plataforma melhor para as pessoas descobrirem o trabalho, foi o que levou à criação do blog. Antes de me assumir, lembro de olhar a representação de homens gays na internet e achei que esta era uma ótima maneira de mostrar às pessoas quem somos. Por exemplo, antes de fotografar pela primeira vez uma família com pais gays, eu não tinha ideia de como seria, mas estar na casa deste casal e vê-los em seu próprio lar me ajudou a entender melhor como eram suas vidas. Espero que consiga documentar as diversas experiências destes homens gays tão diferentes que estou conhecendo.

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Patrick, Ohio

Huffington Post: E enquanto o Blog começou com as suas próprias fotos, agora você abriu para contribuições de outras pessoas.

Kevin: Quero que seja uma comunidade. Enquanto a maioria das fotos são minhas, quero que esta seja uma experiência recíproca, na qual as pessoas sintam-se bem-vindas para compartilhar suas próprias histórias. Só posso viajar às cidades que tenho mais acesso e, para conseguir a diversidade que procuro, preciso que me enviem também. Mesmo que as pessoas queiram permanecer anônimas, sem foto, mas compartilhar suas histórias. Quanto mais pessoas colaborarem, melhor. Pessoas do mundo todo estão visitando o blog, lugares como Iraque e Síria. Recebi, recentemente, uma carta de um garoto de Londres. Ele contou que, ao ler as histórias de outras pessoas no blog, pode se assumir para seus pais. Estas respostas são o motivo de eu estar fazendo isso.

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Felipe, Rio de Janeiro

Huffington Post: Como fotógrafo, você tem uma estética própria. Abrindo o blog para contribuições de outras pessoas, você não pensa em como equilibrá-las com a sua própria percepção de estética?

Kevin: Quando comecei, o foco era a fotografia. Mas quando comecei a viajar para fotografar estes homens, o projeto realmente tornou-se algo mais sobre eles e suas histórias. A fotografia é um gancho para atrair as pessoas, mas as histórias são o que garantem sua permanência e o que mais pode ajudá-las. Não irei recusar uma fotografia só porque talvez não seja tecnicamente perfeita.

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Rudy, Los Angeles

Huffington Post: Você enxerga o projeto em termos de longevidade? Imagino que organizar algo deste tipo demanda bastante tempo.

Kevin: Esta é uma ótima questão. Estou vivendo meu sonho: viajo o mundo, conheço pessoas interessantes, uso minhas habilidades e conto histórias às pessoas. Ultimamente, eu não sei o quão sustentável é isso, já que estou financiando sozinho. Qualquer dinheiro que eu ganho com trabalhos como freelancer vai para passagens de avião e eu fico na casa de amigos para economizar em hoteis. Eu quero levar isso o mais longe que eu puder, ao redor do mundo, a lugar onde ser gay não é aceito. Espero enxergar mais diversidade de pessoas, corpos, classes sociais e regiões. Objetivo final: fazer isso o máximo que eu puder, enquanto eu ainda estiver aproveitando e gostando de fazê-lo, e pelo tempo que eu achar relevante. Quem sabe onde nossa comunidade estará daqui 10 anos?

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Charles, Nova York

Huffington Post: Para você, é sobre compartilhar experiências.

Kevin: O que eu amo é conhecer estas pessoas pela primeira vez, que estão abrindo a vida delas para mim e imediatamente tendo uma conexão verdadeira. Partilhar a questão de sermos homens gays acaba nos unindo. Por exemplo, mesmo que eu e você nunca tenhamos nos conhecido pessoalmente, quando eu leio alguma história sua tenho a sensação de me identificar com você e com ela. Nós podemos ter tido vidas completamente diferentes, mas partilhar o “ser um homem gay” e encontrar a força para viver as nossas vidas com orgulho, essa partilha que me motiva a continuar fazendo este projeto.