Jogador de vôlei Michael acredita que ajudou a diminuir a homofobia no esporte

Michael em ação com a camisa do Vôlei Futuro na Superliga de Vôlei (Foto: Alexandre Arruda/CBV)

Abril de 2011 não sairá mais da cabeça de Michael. Naquele mês, o jogador esteve envolvido em uma das maiores polêmicas do esporte brasileiro. Vítima de homofobia por parte da torcida do Sada/Cruzeiro em jogo da Superliga, o atleta de 28 anos, ganhou apoio incondicional de seu time, o Vôlei Futuro.

Passados mais de oito meses de toda a confusão, o meio de rede afirma que pouca coisa mudou na sua vida, a não ser o fato de ter se tornado mais conhecido e requisitado após assumir a homossexualidade, e se tornar um dos símbolos nacionais da luta contra o preconceito no esporte.

Nesta entrevista exclusiva ao LANCENET!, concedida por telefone de sua casa em Araçatuba (SP), Michael fala sobre o apoio que teve dos seus pais – que sabiam de sua homossexualidade desde a adolescência – do respeito que tem de seus companheiros de times e dirigentes, e de tudo o que envolveu aquela polêmica.

O jogador revela também que nunca namorou e nem pensa em ter um relacionamento afetivo com alguém do meio esportivo.

– Sempre prezei muito por minha vida esportiva – disse Michael, que ainda sonha com uma convocação para a Seleção.

Leia trechos da entrevista com Michael:

LANCENET!: No ano passado, você acabou envolvido em uma das maiores polêmicas do esporte brasileiro. Como está sua cabeça em relação àquilo? Mudou alguma coisa desde então?

Michael: Não vejo mudança nenhuma na minha vida. Como falei e repito: quem sempre me acompanhou, sabe que sempre fui quem eu fui, sempre fui o Michael, tirando estereótipos, essas coisas. Todos os atletas sempre me conheceram, sempre souberam da minha opção sexual, e até quem assistia. Nunca falei para ninguém da minha opção. Foi um fato isolado. Não pensava que ia ter essa repercussão. O que mudou mesmo é que fiquei mais conhecido. Aonde vou, todos falam que adoraram minha atitude. Essa foi a mudança maior.

LNET!: Vivemos em uma sociedade muito machista. Você acha que seu caso ajudou a diminuir a agressividade, pode ter ajudado nesse aspecto?

M: Exatamente. Algumas pessoas podiam ter achado que era uma brincadeira, que pudesse não me chatear. Mas até que ponto isso é brincadeira? E até que ponto pode mexer com um profissional? Isso realmente contribuiu para dar um passo muito grande para que isso não aconteça mais, pois isso pode machucar alguém. Acho que as pessoas vão pensar antes de agir desta forma. O esporte em geral é muito machista. Isso contribuiu para as pessoas pararem e pensarem sobre esse tipo de torcida.

LNET!: Desde então, você foi vítima de mais ofensas?

M: Não aconteceu. Sempre vai ter uma, duas, três pessoas que vão fazer essa brincadeira, como sempre teve. Mas não vou brigar com duas pessoas em um ginásio, não vou deixar isso influenciar meu jogo. Estamos no século 21, as pessoas estão mudando, mas ainda terão alguns que não vão crescer.

LNET!: Comentou-se à época que houve o incidente pelo fato de torcedores organizados do Cruzeiro estarem presentes no ginásio. Você acredita que isso aconteceu porque eram pessoas que estão mais acostumadas com o futebol?

M: Acredito sim. Talvez possa estar equivocado, mas de cabeça nunca tinha presenciado uma manifestação como aquela. A torcida de vôlei vai para torcer, sem agredir. Às vezes chama de burro, mas mais por causa do vôlei.

LNET!: Algum órgão do movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Travestis) o procurou para dar apoio ou saber se você tinha alguma necessidade?

M: Para falar a verdade, só no terceiro jogo do playoff, em Contagem, uma organização da cidade veio falar comigo, para saber se podiam levar uma bandeira de manifestação. Falei que sim, desde que não fosse nada agressivo. Depois, recebi umas gratificações de órgãos GLS. Mas não foram muitos os que vieram falar comigo sobre isso.

LNET!: Como seus pais reagiram à polêmica? Desde quando eles sabiam da sua opção sexual?

M: Ficaram tristes e preocupados com o que aconteceu, se eu estava abalado, se aquilo poderia mudar minha vida. Saí de casa cedo, aos 15 anos, e foi praticamente uma independência. Nunca precisei assumir para ninguém, eu sempre fui basicamente isso. Sempre tive a questão da minha mãe me perguntar algumas coisas, mas não diretamente sobre isso, e comentar abertamente. Foi sempre com privacidade. Minha família soube pelo meu jeito, pelos meus amigos. Logo que saí de casa e voltava de férias, eles sempre souberam.

LNET!: Você disse que seus pais ficaram preocupados. Eles passaram a ser tratados de maneira diferente em Birigui (SP), onde eles moram?

M: Birigui fica a apenas dez minutos de Araçatuba. A região inteira me conhece como atleta. Tudo o que aconteceu, aconteceu no lugar e na hora certa. Se fosse em outro lugar, poderia ter sido diferente.

LNET!: Você chegou a ter algum namorado ou se relacionou com alguém dentro do esporte?

M: Nunca me relacionei dentro do esporte. Eu sempre prezei muito por minha vida esportiva. Até por ser gay e por ter medo de alguma retaliação, sempre mantive minha vida particular muito minha. Mesmo sabendo que todo mundo sabia, não queria que ficasse tão exposto. Nunca vou falar que não saí com ninguém, mas nunca namorei, nem gente do esporte nem de fora.

LNET!:Sempre houve respeito por parte de colegas do esporte, adversários e dirigentes?

M:Sempre tive muito respeito dos companheiros de equipe. Já joguei com muita gente, e todo mundo me tratou muito bem. Se você dá respeito, você tem respeito. Tenho grandes amigos, muita gente que tenho como família, desde o Banespa. Trabalhei com gente com a cabeça boa. Fui bem tratado também pelas condições que eu dei.

LNET!: Você conhece outros atletas homossexuais no vôlei ou de outras modalidades que vieram conversar contigo e te apoiaram?

M: Nunca tive conversa com algum (homossexual) do meio esportivo. Até porque tem gente que se esconde. Não que eu esteja discriminando quem se esconde. Nunca tive contato com ninguém. Procuraram-me mais os amigos e pessoas de fora que acompanharam toda a história, como torcedores.

LNET!: Há alguns anos houve um boato de um jogador de futebol que poderia assumir publicamente a homossexualidade, mas que teria desistido. Nesses casos, você acha que isso parte de cada um, ainda mais no meio esportivo?

M: A questão da pessoa assumir ou não assumir é irrelevante. O atleta tem de fazer o trabalho dele, independentemente da opção sexual, da cor. O que o atleta quer fazer é mostrar trabalho, mostrar quem ele é dentro de quadra. Ninguém chega e pergunta a opção sexual. O que tem de ficar é se ele joga bem ou não.

Fonte: Lance!net

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