Entrevista: João Carlos Castanha

Em 1979, quando trabalhava em uma loja de tecidos, João Carlos Castanha, 53 anos, nem imaginava que seu futuro seria mesmo no teatro e no cinema. Foi através de um anúncio do grupo Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz, atual Terreira da Tribo, um dos mais importantes grupos teatrais de Porto Alegre, que Castanha começou sua longa – e divertida – relação com as artes cênicas.

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[Foto: Alisson Fernandes de Aguiar]

“Eles estavam procurando pessoas que não tinham experiência no teatro. Eu tinha acabado de completar 18 anos e fui lá. Eu e uma gurizada. No fim, entrei numa segunda-feira e na quarta já tinha a primeira apresentação: na Assembleia Legislativa. Foi uma explosão! Fui o único que fiquei. Os pais levaram os filhos embora. Também, era todo mundo correndo pelado na Assembleia! Ainda bem que a minha mãe nunca ligou, sempre falou ‘quer fazer, faz’! Dois anos depois, larguei o emprego na loja. Só continuaria a fazer teatro se fosse para viver de teatro.”.

Com bom humor, o ator conversou com a gente para falar sobre sua trajetória no teatro, seus personagens e a peça ‘Até o Fim’, de sua autoria – entre outros temas ligados à arte e à cultura LGBT. Confira:

A peça ‘Até o Fim’ ganhou sessões extras em Porto Alegre neste final de semana e está deixando o público emocionado. Do que ela trata?

“São os últimos dias de uma pessoa que está em fase terminal em um quarto de hospital e começa a lembrar, em um momento nostálgico, o que viveu, principalmente nos anos 80. Foi uma fase muito legal que, eu, pelo menos, vivi – e acho que muita gente em Porto Alegre. Foi uma década de muita loucura.

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[Foto: Alisson Fernandes de Aguiar]

Era uma fase muito criativa, cheia de referência na música, no cinema e isso se reflete na peça. Ela fala sobre o momento anterior ao fim. Antes da morte. A personagem começa a relembrar tudo o que aconteceu e, ao mesmo tempo, há um conflito e um enfrentamento com a enfermeira certinha – que, aos poucos, vai se transformando em uma afetividade e uma troca entre os dois.”

[Foto: Alisson Fernandes de Aguiar]

Quais foram as motivações/inspirações para escrever o roteiro?

“Como eu gosto muito de cinema – e tem muita referência na peça sobre filmes – me inspirei no longa chamado Blue, do Derek Jarman. Foi feito pouco antes do diretor morrer. Ele estava com HIV, cego, e no filme, totalmente azul, tu só ouve sons do hospital. Então, são macas e os atores que vão visitar ele no hospital. Conversas. Pensamentos. Dá uma agonia.”

Tua atuação parece muito natural, como se fosse o próprio João falando. O quanto tu emprestou da tua personalidade e tuas histórias pro personagem?

“Ah, o deboche. O deboche é meu. Eu brinco assim. As histórias que ele conta do jornaleiro, da xícara no parquinho da redenção também são minhas…”

E a noite em Porto Alegre, nos anos 80, também foi marcante pra ti?

“Era maravilhoso. Não tinha essa violência que tem hoje. Antes, dava pra atravessar a redenção de noite. Hoje, tem vários lugares de encontro. Antes era o Ocidente – a modernidade ia toda pro Ocidente. Quem ia pra lá não ia pra Cidade Baixa – lá, era mais a boemia. Não tinha esse monte de bares. Era tranquilo: podia cair duro, bêbado, na calçada, que tu acordava no outro dia normal, com a carteira no bolso e vestido!”

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[Foto: Luciane Pires Ferreira]

 Fala mais sobre a frase “Às vezes sou homem, às vezes sou mulher, às vezes sou eu mesmo”, tão marcante na peça.

“Essa frase eu acho legal. Eu trabalho muito, às vezes quatro casas noturnas em uma noite. E como Porto Alegre não tem muita opção, as pessoas saem de um lugar pro outro. Alguns me vêem quatro vezes numa noite, então eu tenho que fazer quatro coisas diferentes. Muitos atores fazem sempre a mesma coisa. Deus me livre se eu for fazer um show e as pessoas falarem ‘ai de novo ele, não aguento mais’! Acho boa a surpresa. Às vezes, entro de homem – como o personagem Reginaldo, costureiro que faço, uma bicha que diz que é francesa mas não é – ela nasceu na Praia do Laranjal e, na época do golpe militar todo mundo se exilou no Uruguai, Chile e ela foi pra Las Vegas!

Então, às vezes tô de homem, às vezes de mulher, às vezes sou eu mesmo. Eu sou tudo”.

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[Foto: Cau Guebo]

Uma das personagens que tu criou foi a Maria Helena Castanha. Quando ela surgiu? Inspirada em quem?

“A Maria Helena Castanha surgiu há uns 10 anos. Eu comecei a fazer show em casa noturna há uns 30 anos – já fiz vários personagens e ela é um deles. Ela tem um nome de velha, de senhora de alta sociedade. Nome e sobrenome. Essas coisas. Na idade que eu tô, aos 53, não posso fazer a gatinha. Tenho que fazer a coroa. A referência é dessas atrizes que casam com guri novo, depois levam um chute, os guris roubam tudo delas. Até falo nas peças: ‘quem gosta de velho é dono de bingo!’.

E a maquiagem da Castanha é feita com técnicas do teatro?

“Tudo é teatral. Tanto que gosto de pintar boca preta. Em show, casa noturna, com aquele gloss, a dois metros, já não se enxerga o que a pessoa tá dublando, então faço uma boca que será marcante de longe.”

[Foto: Alisson Fernandes de Aguiar]

[Foto: Alisson Fernandes de Aguiar]

Na peça, tu fala que a crítica nunca irá dizer que um trabalho ficou perfeito. Já teve alguma experiência negativa nesse sentido?

“Uma vez um crítico, em Porto Alegre, na peça Guernica, disse que foi a melhor coisa que eu tinha feito, todo mundo elogiou. Depois, fiz um monólogo, ‘A Rainha do Rádio’, e ele disse “Esse cara nunca faz nada que preste!”. Então eu nem dou bola!”.

Tuas peças e teus personagens, em geral, abordam temas da cultura LGBT com bom humor. Acha que, cada vez mais, há espaço para essa temática? E o humor, aproxima quem não está familiarizado com ela?

“Eu trabalho há vinte anos com o Porto Verão Alegre e todo ano a gente leva uma peça de comédia. Tem ‘O Bordel das Irmãs Metralha’, ‘Escola de Sereias’, ‘Hora do Espanto’ – e todas com dublagem. É engraçado que, nessas peças, apesar de ser voltado pra LGBT, 90% do publico que vai são casais hetero. No ‘Bordel’, tu olha e é um asilo de velhos! Eles vão num espanto com aquela coisa, mas apesar de sermos homens em papeis femininos, a gente não tem problema em brincar, em dizer que é mulher. A gente diz ‘não, eu sou mulher, juro por deus’ e fica insistinto pra eles! Então, eu acho que isso vai tirando o preconceito.”

Dos anos 80 pra cá, sente que melhorou ou houve um aumento no conservadorismo?

“O mundo, o Brasil está mais conservador. Mas essa história de ter o primeiro beijo gay na televisão, depois beijo lésbico – a televisão ajuda a nível de grande público. O meu público não é preconceituoso, mas a sociedade é. O preconceito de algumas pessoas diminuiu, mas o conservadorismo, no governo, por exemplo, aumento, ainda há medo de ousar.”

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[Foto: Alisson Fernandes de Aguiar]

Castanha trabalha de quarta a domingo em casas noturnas da cidade, como Indy’s Pub, Eróticos Vídeo e Vitraux – dublando desde as clássicas como Madonna até as mais atuais, como a funkeira Mc Xuxu. O contato direto com este mundo e a nostalgia em relação à noite dos anos 80 na cidade refletem a construção do personagem de ‘Até o Fim’: inquieto e frustrado em uma cama de hospital, louco pra encontrar um michê e se divertir em alguma festa, mas satisfeito por ter tantas histórias para contar e compartilhar com sua amarga enfermeira. 

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[Foto: Andrea Ludwig]

Pra quem ainda não viu, ou gostaria de rever a peça, uma boa notícia: ‘Até o Fim’ terá sessões extras nos dias 29, 30 e 31 de agosto (de sexta a domingo), às 20h, no Teatro do Museu do Trabalho (Rua dos Andradas, 230). Os ingressos custam R$20,00 (inteira) e R$10,00 (estudante).

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Apresentações extras de 29 a 31 de agosto

No final do mês, estreia nos cinemas o longa ‘Castanha – O Filme’, um documentário sobre a carreira e a vida de João Carlos Castanha, escrito e dirigido por Davi Pretto, já exibido este ano em diversos festivais como o Berlin International Film Festival e Hong Kong International Film Festival.

Por Jéssica Kilpp

 

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