“É uma conquista cidadã, impregnada de luta por direitos e reconhecimento social”

Mérli, Dora e um direito conquistado

Juntas há mais de duas décadas, a diretora de criação da Patuá Comunicação, Dora Bragança Castagnino, 53 anos, e a professora universitária Mérli Leal Silva, 49 anos, assinaram o contrato de casamento civil em junho de 2012, quatro anos depois de registrarem a união estável. Nessa entrevista ao SOMOS, as publicitárias falam sobre casamento igualitário, direitos LGBT e preconceito.

SOMOS – Vocês sempre tiveram planos de se casar quando fosse possível, ou se decidiram após a decisão do STJ?
Dora e Mérli – Após a decisão do STJ. Achamos que é um direito, e vimos no jornal que em Porto Alegre o Ofício do Registro Civil das Pessoas Naturais da 4ª Zona estava realizando o casamento sem muitos problemas. Fomos procurá-los e fomos muito bem recebidas.

Foi necessário entrar na justiça para que o cartório realizasse o casamento de vocês?
Ao nos atender, nos disseram que poderíamos ter que recorrer, mas fizemos o pedido e em 20 dias recebemos o OK e já marcamos a data.

Vocês foram bem recebidas e tratadas pelos funcionários do cartório?
Eles foram super legais e educados. A juíza foi nos casar no local da recepção em uma sexta-feira, às 20h. Foi lindo e igual a qualquer outro casamento civil.

Vocês tiveram o apoio de familiares e amigos na decisão de se casar?
Muitos grandes amigos e poucos familiares, onde o preconceito ainda persiste. Nossos amigos são parceiros de mais de duas décadas – a maioria, casais heterossexuais. Foi bom demais! Nosso filho levou as duas até o salão e a juíza nos entregou uma para outra. Vocês não imaginam a emoção da gente!

Agora que estão casadas, quais são os planos para o futuro?
Vivemos juntas há 22 anos e fazemos planos novos todos os dias. Lutamos diariamente para que o mundo enxergue nosso amor como um sentimento verdadeiro de respeito e carinho. Temos um filho lindo de 20 anos, que é fruto dessa relação de muito afeto. Nossa vida é viver o presente, projetando o futuro sempre. Sempre agimos como casadas, mas o papel fez algo com a gente, algo bom e diferente. É uma conquista cidadã, impregnada de luta por direitos e reconhecimento social.

Na opinião de vocês, qual é a importância da conquista do direito ao casamento civil para os gays e lésbicas?
Nos tira da contramão, do escondido, do ilegal. Nos sentimos cidadãs de forma plena! Há duas pessoas construindo, juntas, várias coisas: bens, filhos, vida. Isso precisa ser reconhecido pela lei, pelas famílias das pessoas – há muita família negando reconhecer os bens mútuos em caso de morte. Isso nos preocupava muito também. Mas o mais bonito é pensar que mais gente pode fazer o que fizemos. Com toda pompa e circunstância, festa, roupa de noiva, lua de mel – todo o rito tão bonito de união das pessoas. Acessível para 100% da população. A moça que fez as noivinhas para o bolo não tinha pronto, pois nunca havia feito. As nossas foram as primeiras – esperamos que de muitas que virão.

O que ainda falta melhorar e fazer na questão dos direitos dos LGBT?
Tudo – casamentos como o nosso ainda são exóticos e pouco divulgados. Precisamos ser tratadas como iguais, como todo mundo. Há uma inabilidade total da sociedade em lidar conosco: os médicos não levam em conta quem somos e não nos tratam com respeito. O turismo – em hotéis sempre dão cama dupla para gente, apesar de eu fazer a reserva como casal. Há muito para fazer, muito mesmo!

Para vocês, como a população em geral enxerga a questão dos direitos e do respeito aos LGBT?
Melhorou muito. Ainda há preconceito, mas em geral as coisas estão bem mais civilizadas –  cada um cuidando da sua vida e deixando os outros serem felizes. Dar visibilidade é importante porque desmistifica. Mas a violência existe e nos assusta ainda. Só queremos direitos iguais, pois somos iguais.

"Vocês não imaginam a emoção da gente!"

Da Redação

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