Cotas ampliam presença de negros no curso de Medicina da UFRGS

Fluminense radicada no RS, Laís Rodrigues é um dos bixos cotistas da Medicina da UFRGS Foto: Emílio Pedroso / Agência RBS

Desde as 8h30min de quarta-feira, 13 de junho, os alunos que circulam no interior de uma das principais faculdades do Estado ganharam um perfil mais parecido com o da população que perambula pelas calçadas do lado de fora.

Antes restrito a uma maioria esmagadora de estudantes brancos, o curso de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) ganhou uma proporção inédita de rostos negros na matrícula para o segundo semestre, feita ontem, graças a mudanças realizadas no mais recente vestibular.

Mesmo com a implantação das cotas, em 2008, o ingresso de negros egressos de escolas públicas em cursos muito disputados como a Medicina era mínimo. No primeiro ano, por exemplo, somente brancos conseguiram superar a nota mínima exigida para ocupar uma cadeira na academia. A partir do último concurso, essa nota de corte foi eliminada. Isso facilitou o preenchimento das 21 vagas – de um total de 140 – destinadas ao programa de promoção étnica.

— A avaliação subjetiva que temos é de que a mudança nos critérios realmente surtiu efeito e aumentou a presença dos negros aqui — afirmou o coordenador da comissão de graduação da faculdade, Gilberto Friedman.

Calouros foram recebidos com tintas por veteranos

A instituição não divulgou, porém, números oficiais sobre a etnia de quem confirmou ingresso. Recebidos pelos veteranos, tiveram a cor da pele misturada aos tons de tintas com que foi estampada a palavra “bixo” no rosto.

— O contato com os veteranos foi muito bom, acho que não haverá diferença de tratamento — disse o calouro Guilherme Reis, 20 anos.

Os pais da futura médica Jéssica Franco, 20 anos, acompanham a filha no ingresso ao Ensino Superior.

— É um duplo orgulho. Não só pela minha filha, mas pelo que isso representa de resgate em relação às oportunidades que os negros não tiveram no passado — observou o pai, o professor estadual Luiz Henrique Franco.

Zero Hora conversou com seis dos novos acadêmicos que se autodeclararam negros. Confira, nesta página, quem são e o que pensam alguns dos beneficiados pela política que está mudando o perfil de um dos cursos mais tradicionais do Estado.

O perfil dos futuros médicos

Jéssica Franco. Idade: 20 anos.  Cidade: Porto Alegre.  Filha de professor estadual, Jéssica já tem planos bastante detalhados para quem mal pisou nos corredores da Medicina da UFRGS. Antes mesmo da conquista da vaga, a ideia inicial da egressa do Colégio Tiradentes, da Brigada Militar, era ser neurocirurgiã. Porém, pensando enquanto aguardava a matrícula, decidiu manter em consideração outras três especialidades, oftalmologia, cardiologia ou pediatria: “A chegada dos negros à universidade é muito importante para corrigir uma questão histórica.”

Felipe de Oliveira. Idade: 26 anos. Cidade: Caxias do Sul. O ingresso de Felipe na Medicina da UFRGS, beneficiado pela mudança no sistema de reserva de vagas para negros egressos de escolas públicas, encerrou uma série de tentativas. Esta foi a sexta vez que Felipe tentava seguir a carreira. Para compensar o esforço, também foi aprovado pela federal de Santa Catarina. Mas o filho de um mecânico com uma agente de saúde nem pensou em deixar o Estado: “Embora eu goste de praia, não se compara a uma universidade como a UFRGS.”

William Oliveira. Idade: 19 anos.  Cidade: Porto Alegre.  Morador do bairro Sarandi, na zona norte da Capital, William Oliveira, 19 anos, começou a realizar ontem um sonho de infância: virar médico. Egresso da escola estadual Parobé, de Porto Alegre, ainda não sabe como será a receptividade da academia aos novos estudantes negros da Medicina, mas confia em um futuro mais igualitário: “Com uma entrada maior dos negros na universidade, teremos uma quantidade muito maior de médicos negros, que hoje praticamente não existem.”

Bruna de Mello Vicente. Idade: 17 anos. Cidade: Venâncio Aires. Para Bruna, fazer parte da primeira turma da Medicina da UFRGS com presença significativa de alunos negros tem um grande valor. “Esta será uma turma histórica, até como marco de início de uma integração étnica muito maior em um dos cursos mais tradicionais da universidade.” Em 30 de janeiro, a filha de um mecânico e uma comerciária publicou um texto sobre o tema das ações afirmativas em ZH, chamado Tentativa de Igualdade.

Guilherme Reis. Idade: 20 anos. Cidade: Santo Ângelo. Depois de passar em um dos vestibulares mais difíceis do país, Guilherme tem um outro desafio: encontrar lugar para morar na Capital. Está na casa de parentes. Filho de pai professor e mãe técnica em enfermagem, pretende decidir durante o curso que especialização seguir. Ele comemora a mudança nos critérios da UFRGS que facilitaram a inclusão dos negros: “Antes, mesmo com as cotas, era difícil um negro entrar nos cursos mais concorridos. Agora é diferente”, vibra Guilherme.

Laís da Silva Rodrigues. Idade: 19 anos. Cidade: Canoas. Fluminense radicada no Rio Grande do Sul há 12 anos, Lais recebeu uma ligação da mãe quando foi divulgado o listão dos aprovados em um dos cursos mais tradicionais do Estado. Do outro lado da linha, a mãe, funcionária em um escritório de advocacia, chorava de emoção. Estudante do Colégio Militar, a caloura sonha em ser cirurgiã pediátrica. “As cotas são fundamentais para dar mais oportunidades aos negros”, sustenta.

Para entender
– 30% para cotistas – 15% para egressos do ensino público e 15% para egressos do ensino público autodeclarados negros.
Como era
– A universidade selecionava um grupo de alunos com melhor desempenho, cujo número variava conforme a quantidade de vagas de cada curso, independentemente de serem ou não cotistas.
– Se não houvesse cotistas, eles não ocupavam as vagas destinadas a eles. Isso ocorria principalmente com os negros.
Como ficou
– Em vez de selecionar os melhores colocados em geral, a UFRGS passou a fazer três seleções: os melhores não-cotistas, os melhores do ensino público e os melhores egressos da rede pública autodeclarados negros.

Fonte: Zero Hora

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