Coberto de batom, túmulo de Oscar Wilde é restaurado

Foto: Peter Horree/Alamy

“Um beijo pode arruinar uma vida humana”, escreveu Oscar Wilde. Também pode estragar o trabalho artístico de um túmulo, a julgar pelos extraordinários grafites — beijos com batom deixados por admiradores — que há anos desfiguram e corroem o imponente memorial ao dramaturgo e intelectual irlandês no cemitério Père Lachaise, em Paris.

Wilde morreu na capital francesa em 1900, aos 46 anos. Seu túmulo restaurado será finalmente revelado esta semana, agora protegido dos devotos.

Durante anos os visitantes se limitaram a deixar bilhetes de admiração dedicados ao criador de A Importância de Ser Honesto e O Leque de Lady Windermere. Tudo isso mudou no final dos anos 1990, quando alguém decidiu deixar na tumba uma marca de beijo com batom. Desde então, beijos e corações de batom foram acompanhados de uma algaravia de grafite vermelho contendo expressões de amor como: “Criança Wilde, nós lembramos de você”, “Continue olhando para as estrelas” e “A verdadeira beleza termina onde começa o intelecto”. Surpreendentemente, talvez, a maioria é escrita por mulheres.

Merlin Holland, neto de Wilde, disse que o batom se tornou “um problema sério” porque sua gordura penetra na pedra. “Cada limpeza causa um pouco de desgaste na pedra”, disse.

“Não adiantaram os diversos apelos ao público. Beijar o túmulo de Oscar no circuito turístico de Paris tornou-se um passatempo cultuado, que está se mostrando impossível de extinguir. Mesmo que se pudesse apanhar alguém em flagrante delito — existe uma multa de 9 mil euros –, os infratores geralmente são turistas, e teriam voltado para casa antes que as autoridades pudessem levá-los ao tribunal.

“Do ponto de vista técnico, o túmulo está ficando danificado de forma irreparável. Cada limpeza torna a pedra mais porosa, exigindo uma limpeza ainda mais drástica.”

As autoridades de Paris oferecem uma fração do custo de preservação do memorial, e o governo irlandês veio em socorro, pagando por isso através do Departamento de Obras Públicas de Dublim, que é responsável por diversos monumentos e construções irlandesas no exterior. Ele pagou por uma limpeza radical e “desengorduramento” da tumba, assim como por uma barreira de vidro que vai cercá-la para evitar que os beijoqueiros causem mais danos.

Holland explicou que quando Wilde morreu estava falido, e seus amigos só puderam lhe oferecer um “enterro de sexta classe” em Bagneux, fora da cidade. Nos anos seguintes seu amigo e testamenteiro literário, Robert Ross, conseguiu através da venda das obras de Wilde — incluindo De Profundis, sua amarga carta de recriminação escrita na prisão para lorde Alfred Douglas (Bosie), seu ex-amante — anular a falência do escritor e comprar um jazigo perpétuo no Père Lachaise.

No ano seguinte, Helen Carew, uma amiga de Ross que havia conhecido Wilde em seu apogeu, ofereceu anonimamente 2 mil libras esterlinas para erguer um monumento feito pelo jovem escultor Jacob Epstein. A encomenda, um anjo nu voando, inspirado nas figuras assírias do Museu Britânico, foi finalmente revelada em 1914 e sobreviveu intacta até o início dos anos 1960, quando foi alvo de vandalismo: teve os órgãos genitais arrancados e roubados.

A reinauguração do monumento ocorrerá nesta quarta-feira, 30 de novembro, aniversário da morte de Wilde. Ela será assistida por representantes dos Ministérios da Cultura da Irlanda e da França, assim como pelo ator Rupert Everett, cujos filmes incluem A Importância de Ser Honesto.

Holland espera que a barreira de vidro afaste os vândalos apaixonados. Desenhada para ser discreta e estética, ela poderá apenas desencorajar, mais que impedir, a aproximação, e ele diz que “alguns beijoqueiros decididos sem dúvida tentarão encontrar formas de beijar as extremidades superiores”.

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