Bancos de embriões estão lotados no país, diz conselho de medicina

O aumento de embriões armazenados no país começa a apresentar, de acordo com o Conselho Federal de Medicina (CFM), sinais de um futuro “gargalo” na manutenção do material genético de acordo com padrões técnicos e de qualidade estipulados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

De acordo com dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), em 2008 foram congelados 5.539 embriões em 33 Bancos de Células e Tecidos Germinativos (BCGT). No ano seguinte foram armazenados 8.058 embriões em 31 laboratórios. Em 2010, 72 bancos produziram e armazenaram 21.254 embriões.

'Botijão' usado para armazenar embriões congelados (Foto: Divulgação/Programa Alfa Reprodução Assistida)

Os três relatórios foram feitos no cenário de 120 bancos cadastrados na Anvisa. A discrepância no número de laboratórios que colaboraram com a tabulação das informações se explica pelo fato de não haver obrigatoriedade para o repasse de dados. Hoje, segundo a Sociedade Brasileira de Reprodução Humana (SBRH), são mais de 200 estabelecimentos que estão habilitados para o armazenamento.

O primeiro relatório do SisEmbrio, que antecedeu os outros três, foi feito com dados enviados até 31 de dezembro de 2007. O levantamento mostrou que 47.570 embriões estavam armazenados no país, mas o documento não indica a data de início da produção e da manutenção do material. O crescimento bruto de embriões no país, de 2008 para 2009, foi de 45,47%. No período de 2009 a 2010 chegou a 163,76%.

O crescente volume de embriões armazenados se explica, na maioria dos casos, pela procura tardia da mulher para engravidar. “O índice de mulher que tem problemas para engravidar é muito grande também. A endometriose é um dos principais motivos. A pessoa que mora em áreas poluídas tem mais chances de ser estéril. O uso de drogas ilícitas também prejudica. Outro motivo é que a mulher está retardando cada vez mais a tentativa de engravidar”, disse José Hiran da Silva Gallo, ginecologista e obstetra que integra a direção do CFM.

‘Gargalo’

Para ele, há outras questões que envolvem o armazenamento dos embriões, que não estão diretamente ligadas à medicina. “Há diversos dogmas neste assunto, como a religião, por exemplo. Embrião é uma vida e aí começam as discussões. Avançamos muito neste sentido, principalmente em uso pós-morte e de casais homoafetivos. No Distrito Federal, por exemplo, tem contêineres e mais contêineres de material biológico. Não há no mundo estudo sobre descarte e nós estamos estudando isso. Nenhum país legisla sobre o descarte. As pessoas que utilizam da reprodução assistida e conseguem ter sucesso deixam de lado o restante do material.”

Hiran afirmou ainda que há unidades de BCGT que não possuem mais condições de manter os embriões estocados. “Tem uma clínica particular no Distrito Federal, que não posso citar o nome por razões éticas, que tem dois contêineres com material biológico e não tem mais espaço para novos embriões. Todo o material é crioconservado.”

“O armazenamento de embriões já é um problema para as clínicas, pois não há descarte, mas ainda não acho que há um gargalo. Não vejo problema de falta de espaço físico, já que um botijão com nitrogênio líquido comporta cerca de mil embriões armazenados. Apesar disso, acho que em alguns anos isso será uma realidade”, disse Artur Dzik, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

Reprodução sem controle

“Não temos informações de quantos procedimentos de reprodução assistida são feitos no país. Cada mulher pode fazer entre três, quatro e cinco procedimentos. Nem mesmo quantas mulheres procuram por esse tratamento sabemos. Estamos tentando ver se conseguimos essa estatística através do registro dessas clínicas nos conselhos regionais de medicina”, disse Hiran.

Segundo ele, “não há lei no país que regule a reprodução assistida no país, apenas os critérios éticos. Para a clínica atuar ela precisa estar cadastrada nos conselhos regionais de medicina e ter um responsável técnico, que tem de ser médico”, afirmou o ginecologista.

Hiran informou que uma das relevâncias do cadastro nacional está em poder nortear ações médicas que possam melhorar a vida da mulher, principalmente. “Queremos mensurar a idade da mulher que procura a reprodução assistida. Com esse dado poderemos estipular regras que especifiquem o limite de idade que a mulher pode procurar esse procedimento. Isso vai permitir que saibamos como está a fertilização da mulher brasileira com um todo.”

Segundo o especialista, não é perfil do brasileiro de armazenar óvulos e sêmen previamente, quando ainda é jovem. Normalmente isso é feito quando a pessoa tem diagnóstico de câncer, por exemplo, e o paciente terá de se submeter a tratamento de quimioterapia.

Aproveitamento e planejamento

“Algumas pacientes já procuram congelar óvulos quando jovens. De 2007 para cá essa técnica de vitrificação começou a ficar mais difundida. O congelamento de óvulo, antes disso, não tinha boa qualidade por causa da quantidade de líquido. Hoje, a gente desidrata um pouco o óvulo para o congelamento. Cerca de 30% das pacientes jovens conseguem engravidar, dessa maneira”, disse o ginecologista e obstetra Edward Carrilho, especialista em reprodução humana.

Segundo ele, os embriões excedentes da paciente que não quiser usá-los têm de ser congelados. “Depois que ela engravida isso se torna um problema, no Brasil não se pode descartar o embrião. Ou se mantém o congelamento, ou doa para pesquisa ou então faz uma doação para outros casais. O descarte é proibido.”

Carrilho acredita que o aprimoramento dos dados contidos no SisEmbrio pode facilitar a otimização de uso do material genético para reprodução assistida. “Se houvesse um cadastro nacional de doadores de óvulos e sêmen, por exemplo, facilitaria muito a utilização do material, pois poderíamos cruzar as informações fenotípicas do material genético doado com o da mulher receptora. Isso, sem dúvida, aceleraria muito o uso do material que é descartado após a concretização das fertilizações.”

Ele disse também que se a Anvisa puder contar com os dados de todos as clínicas para abastecer o SisEmbrio, em pouco tempo as informações poderão ser cruzadas com as que estão na Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (Rede Lara).

Fonte: G1

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