70 anos de Cinema Gay: confira os filmes de temática LGBT que marcaram as últimas 7 décadas

O Segredo de Brokeback Mountain (2005)

O site A Capa montou uma lista de filmes que tratam de homossexualidade, desde os anos 40 até os dias de hoje, “analisando a trajetória desses ‘ousados’ filmes que se atreveram a escancarar seu nome ao longo dos anos”. Confira!

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Atualmente, a questão gay ficou banal em filmes e seriados de TV, principalmente norte-americanos. Mesmo assim, no Brasil ela ainda é tabu, acontece rebuliço e proibição a cada novela que tenta mostrar um beijo gay e até mesmo desenvolver personagens gays.

Felizmente, o cinema sempre foi um território mais livre que a televisão. Portanto, com vocês, a viagem dos filmes gays desde 1940. Malditos, pops, atrevidos, coloridos, musicais, enrustidos, bizarros…

Anos 40

Nessa época, nenhum filme gay era produzido. Mesmo assim, houve Festim Diabólico (EUA, 1948), baseado em peça de teatro e dirigido por Alfred Hitchcock. Embora o foco central da história seja um assassinato, vale registrar que os autores do crime são dois rapazes (John Dall e Farley Granger), que são namorados. Uma história semelhante geraria o filme Estranha Compulsão (EUA, 1959).

Anos 50

Na era de ouro de Hollywood, tudo ainda era transmitido por baixo do pano e ninguém se atrevia a dar nome aos bois. Assim, em Juventude Transviada (EUA, 1955), o adolescente Plato (Sal Mineo) nutria uma paixão recolhida e platônica por Jim (James Dean).

Adaptado da peça de Tennessee Williams, De Repente no Último Verão (EUA, 1959) aborda a morte de um rapaz atlético, Sebastian – de quem só vemos as belas pernas e a sunga justa. O moço morreu literalmente comido em um ato canibal, por marginais em uma praia selvagem. O motivo: ele ficou “dando pinta” para os brucutus. A prima (Elizabeth Taylor) é a única testemunha.

Da mesma forma subliminar, o épico Ben-Hur (EUA, 1959) mostrava disfarçadamente o romance entre o escravo Ben-Hur (Charlton Heston) e seu amigo Messala (Stephen Boyd). Já em 1960, Spartacus (EUA) sugeria relações sexuais entre outro escravo (Tony Curtis) e seu patrão (Laurence Olivier).

Anos 60

Começam a surgir os primeiros filmes que ousam tocar no tabu, principalmente do universo lésbico. Infâmia (EUA, 1961), baseado na peça de Lillian Hellman, narra o drama de duas professoras de uma escola (Shirley MacLaine e Audrey Hepburn), acusadas por uma aluna de manterem um caso.

Apenas Uma Mulher (Canadá, 1967) mostra o romance entre duas mulheres isoladas em uma cabana e tem sua paz perturbada por um forasteiro.

Anos 70

A partir daqui, as portas vão se abrindo, pós-revolução sexual dos anos 60. Começa a ficar cada vez mais frequente a aparição de personagens ou situações gays.

Os Rapazes da Banda (EUA, 1970) já abre a década mostrando um grupo de amigos bibas que resolvem comprar um michê para dar de presente a uma bicha velha que está fazendo aniversário. Um clássico que gerou filmes parecidos, como Some of My Best Friends Are (EUA, 1971).

No setor underground, pululavam filmes obscuros que já cruzavam a fronteira entre o erótico e o pornográfico, como Pink Narcissus (EUA, 1971), um experimento estético antológico, traduzindo em imagens oníricas fantasias sexuais gays. E também Fortune and Men’s Eyes (EUA, 1971), baseado em texto teatral.

Enquanto isso, na Europa, claro, a coisa rolava muito mais solta. Assim, filmes holandeses como Louca Paixão (1973) e Sem Controle (1979), ambos de Paul Verhoeven, já traziam personagens bissexuais ou gays, com direito a nu frontal masculino e cenas de sexo quase explícitas.

Na Itália, o grande Federico Fellini traz Satyricom (1970), adaptado do romance de Petrônio. Em uma Roma libertina, homens se entregam uns aos outros em saunas luxuosas, e dois belos rapazes passam a disputar a propriedade do ninfeto Gitone.

Também italiano, o cineasta gay Lucchino Visconti realiza diversas obras homoeróticas – as principais, Morte em Veneza (1971) e Violência e Paixão (1976).

Na Alemanha, A Consequência (1977) mostrava um caso de amor gay em meio ao sistema carcerário. Um ano depois, em O Expresso da Meia-Noite (EUA, 1978), o protagonista preso em uma cadeia da Turquia se rende a uma noite de amor com outro detento. E a França veio com A Gaiola das Loucas (1978), que marcou época.

Na Dinamarca, em 1978, foi realizada a obra prima You Are Not Alone, sobre uma escola de rapazes no interior do país. Uma joia rara, o filme mostra o romance cândido entre um aluno e o filho do rígido diretor do colégio. Com direito a beijo gay no final – entre atores menores de 18 anos inclusive! Uma façanha que impediu o filme de rodar o mundo – só chegou aos cinemas americanos em 1981. No Brasil, obviamente, jamais foi exibido. Hoje pode ser encontrado em DVD importado ou em downloads na internet.

E até o Brasil arrasou com A Rainha Diaba (1973), pós-tropicalista e totalmente gay, atualizando de forma carnavalesca a história do bandido Madame Satã, aqui batizado de Diaba (em grande atuação de Milton Gonçalves).

Também tivemos o obscuro Os Imorais (1979), com Paulo Castelli encarnando um tímido e carente cabeleireiro de um salão da rua Augusta, que se apaixona pelo filho de uma cliente perua.

Mas os EUA também tiveram seus momentos de glória com Cabaret (1972), um musical com jeitão de filme europeu – se passa na Alemanha dos anos 30. O professor interpretado por Michael York era gay e tinha casos com aristocratas, enquanto namorava a tresloucada cantora Sally Bowles (Liza Minnelli).

Para encerrar a década, já antecipando o fantasma da Aids que marcaria os anos 80, o diretor William Friedkin – o mesmo de Os Rapazes da Banda – realizou Parceiros da Noite (EUA, 1979). Na fita, Al Pacino faz um policial hétero que se disfarça de gay e passa a frequentar um bar SM, repleto de homens de couro – tudo para capturar um serial killer que mata gays.

Anos 80

O surgimento da Aids gerou a produção de muitos filmes sobre o tema, como An Early Frost (EUA, 1985) e Meu Querido Companheiro (EUA, 1989).

Mas apesar da terrível síndrome, o mundo gay cinematográfico nem se abalou e continuou dando close. O diretor alemão Rainer Werner Fassbinder morreu em 1982, e como último filme deixou a pérola Querelle, adaptada da peça do francês Jean Genet. Maurice (Inglaterra, 1987), por sua vez, contava o romance entre dois ex-colegas de colégio, e o argentino A Outra História de Amor (1986), o de um jovem executivo e seu chefe.

Nos EUA, o grande boom foi Fazendo Amor (1982). Pela primeira vez, um romance entre dois homens era mostrado de forma humana e sutil, com beijo e tudo.

O Beijo da Mulher-Aranha (1985), uma co-produção Brasil-EUA, levou às telas a amizade entre o gay Molina (William Hurt) e o guerrilheiro Valentin (Raul Julia). Hurt ganhou o Oscar.

E não podemos esquecer o surgimento do genial espanhol Pedro Almodóvar. Ao longo dos 80, ele faria obras sempre dialogando com o universo gay. Entre as principais: Labirinto de Paixões (1982), Matador (1986) e A Lei do Desejo (1987).

Anos 90

O chamado boom gay, a descoberta do “pink money”, a explosão da cultura clubber – tudo isso levou a uma múltipla produção de cinema gay, de todos os tipos e sabores. O mundo das drag queens gerou Priscilla, a Rainha do Deserto (Austrália, 1994) e Para Wong Foo, Obrigado por Tudo, Julie Newmar (EUA, 1996). Na mesma linha cômica, os EUA refilmaram A Gaiola das Loucas (1996).

No cinema independente, surgiam grandes cineastas como Gus Van Sant, que realizou o deslumbrante Garotos de Programa (EUA, 1991), com River Phoenix e Keanu Reeves como dois michês.

A repressão e o preconceito surgem em O Padre (Inglaterra, 1994), enquanto os EUA fazem, no mesmo ano, Filadélfia, com Tom Hanks no papel de um advogado soropositivo – levou o Oscar.

Também levou o Oscar o documentário Celulóide Secreto (EUA, 1993), cujo tema era exatamente a questão LGBT na história do cinema.

Vieram os filmes “fofos” com adolescentes, como Jeffrey (EUA) e Delicada Atração (Inglaterra), e o registro histórico Stonewall (EUA), todos de 1996. Também teve as comédias americanas com gays simpáticos, como O Casamento do Meu Melhor Amigo (1997). Os filmes de montação pop-rock-glitter, como Velvet Goldmine (EUA, 1998) e Hedwig (EUA, 2000). E muitos mais.

Anos 2000

O mesmo se aplica à última década. A produção temática se ampliou de forma incrível, gerando filmes gays em toda parte do mundo e abordando todos os ângulos e aspectos da questão.

Assim, Israel traz o diretor Eytan Fox, que realiza Delicada Relação (2002) e The Bubble (2006). O canadense Bruce LaBruce, que vinha dos anos 90, aprimora seu cinema terrorista-pornô-gay-explícito, como em The Raspberry Reich (2004). O americano John Cameron-Mitchell – de Hedwig – realiza o revolucionário Shortbus (2006), também com cenas pornôs gays explícitas.

O espanhol Pedro Almodóvar continua em ação e faz suas duas maiores obras-primas – e mais LGBT do que nunca: Tudo Sobre Minha Mãe (1999) e Má Educação (2004).

A França surge com o belo musical Canções de Amor (2008), com Louis Garrel, além do supergay Homem no Banho (2010), também com cenas pornôs – ambos dirigidos por Christophe Honoré.

No Brasil, a situação avançou e assim tivemos Madame Satã (2002), de Karim Ainouz, Do Começo ao Fim (2008), sobre a relação entre dois irmãos, Como Esquecer (2010), com Ana Paula Arósio, e agora Elvis & Madona (2010), narrando o romance de uma lésbica com uma travesti.

Nos EUA, que continua a indústria de cinema mais influente do mundo, a questão gay volta à tona. O sucesso avassalador de O Segredo de Brokeback Mountain (2005) foi um divisor de águas. Tão importante quanto, Transamerica (2006) mostra a luta de um transexual para adquirir a identidade feminina. Milk (2008), de Gus Van Sant, contextualiza a história de Harvey Milk, o primeiro político abertamente gay a se eleger nos EUA.

Mudaram os enfoques e as tintas, tudo ficou mais político, sinal dos tempos obscurantistas, também no cinema. Mas o importante é que a chama gay continua iluminando as telas, câmeras e projetores. E sempre continuará, afinal, como diz Sally Bowles: “Life is a Cabaret!”

Fonte: A Capa

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