Pra morador da Cidade Baixa ver

Foto: Comunicação/SOMOS

É comum usarmos a expressão “pra inglês ver” quando nos referimos a uma situação ou atitude encenada, que cumpre algumas regras sociais mais ou menos ritualizadas e que concretamente não tem efeito. “Pra inglês ver” são aquelas ações ou falas que procuram mostrar que alguém faz o que é mandado/a fazer, mesmo que sua prática não resulte em grandes feitos.

Foi isso o que aconteceu ontem na rua Lima e Silva, por volta das 19h30min. Três caminhonetes da Brigada Militar estacionaram em frente ao Centro Comercial Nova Olaria, e mais de 10 policiais da Brigada mandaram que as pessoas que se aglomeravam ali em frente fossem para a “parede”: todos e todas foram revistados/as – as meninas por uma policial feminina – e as mochilas foram abertas e inspecionadas, inclusive os maços de cigarro, pois talvez ali se esconderiam as buchas de cocaína que os jovens supostamente cheiram nos parapeitos das janelas dos prédios.

Maurício, Aline, Guilherme, Caio e Daniel
monitores do projeto ‘Qual é a sua?’
Foto: Comunicação: SOMOS

Uma equipe de 7 pessoas do SOMOS esteve entre o grupo de jovens durante duas horas neste domingo, dia 10 de abril, junto com representantes de outras instituições de Porto Alegre que lutam pela garantia e promoção dos Direitos Humanos de pessoas LGBT. De maneira surpreendente, não vimos nenhum tipo de sexo a céu aberto, tampouco vandalismo: vimos, sim, uso de álcool e muitos (longos e molhados) beijos entre dois meninos e entre duas meninas. Vimos jovens sentados na calçada tocando violão e até mesmo discutindo sobre futebol, sobre a vitória de 6 a 2 do Internacional de Porto Alegre sobre o Canoas.

Abaixo segue o relato de Guilherme Ferreira, monitor do Projeto Qual é a Sua? que trabalha prevenção às infecções sexualmente transmissíveis, HIV e Aids entre jovens gays. Guilherme também foi abordado pela atuação da Brigada, junto com os/as outros/as integrantes da equipe.

  Por Guilherme Ferreira
Guilherme Ferreira.
Foto: Comunicação/SOMOS 

A rua estava tão tranquila que já cogitávamos a ideia de ir pra casa. O pessoal que por ali transitava não ficava em um espaço específico, alguns passeavam, outros formavam pequenos grupos que nem de perto lembravam o mar de gente ao qual estávamos acostumados. Tinha gente tocando violão na calçada, o suposto “sexo a céu aberto” era expresso através de beijos gays, lésbicos e héteros, nada mais. Foi quando surgiram viaturas da Brigada Militar de onde desceram dois homens e uma mulher. Enquanto o primeiro batia com as mãos em movimento mandando a todos que se juntassem um atrás do outro, o outro homem e a mulher se preparavam um a cada lado: todos seriam revistados.

De pronto, a maioria dos jovens se uniu ao local indicado, assustados. Em um primeiro momento, me neguei a fazê-lo. Um deles disse que todos os menores de idade que estavam bebendo passariam pela revista. Novamente argumentei, dizendo que não era nem um, nem outro, mas não adiantou. Senti o punho de um brigadiano no meu braço sugerindo que eu devesse caminhar até o ponto indicado, vi os meus colegas da ONG já postos, senti medo. Medo e vergonha do medo. Por que, sabedor dos meus direitos, eu deveria me subjugar àquilo? Pensei nos jovens. Se nós, conscientes de um suposto conhecimento especial que nos diferenciava dos outros nos colocamos à disposição daquela vistoria, o que eu poderia pensar então dos jovens?

Fizeram questão que eu colocasse os braços na cabeça. Um deles revistou minha bolsa cheia de camisinhas, perguntou se eu as vendia, eu disse que não, as estava distribuindo e ele estava a vontade pra pegar. Disse-me depois que ele entendia minha indignação, mas que eu o entendesse também, porque se ele pudesse, estaria atrás de bandido. A mídia estava em cima, moradores cobravam como se eles não fizessem nada, pretendiam espantar possível comércio de drogas, justificava e justificava.

Meninas gritavam depois indignadas. Berravam por direitos, alguns se perderam de seus pares. Outros riam nervosos e nem a metade continuou no local – 20h e já não havia mais o mesmo movimento na rua.

Depois dessa experiência, Sandro Ka, coordenador do Núcleo de Cultura do SOMOS e artista visual, desenvolveu a arte abaixo que expressa nossa contrariedade às atitudes da segurança pública, claramente pautadas pelas recentes matérias veiculadas em um jornal da capital gaúcha, em que os jovens que se reúnem na rua Lima e Silva foram descritos como vândalos que fazem sexo a céu aberto. O SOMOS defende o direito de ocupação do espaço público.

 Foto: Comunicação/SOMOS

2 thoughts on “Pra morador da Cidade Baixa ver

  1. Estive no momento da abordagem, e acho um absurdo o que fizeram. Enquanto isso, no mesmo horário, uma amiga minha estava sendo assaltada à mão armada na praça da Redenção.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *