Porto Alegre em Cena apresenta peça dirigida por Ney Matogrosso com contos de João do Rio

 O cantor dirige Marcos Alvisi em Dentro da Noite, monólogo que será apresentado de terça a quinta-feira, no Teatro Carlos Carvalho.

Com 70 anos completados no dia 1º de agosto, Ney Matogrosso não tem orgulho de dizer que descobriu a obra de João do Rio (1881 – 1921) apenas na última década.

Desconhecê-la era algo imperdoável – afirma, em entrevista concedida por telefone.

– João do Rio me fez entender Nelson Rodrigues. Cronista da cidade cujo nome carregou no pseudônimo, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto –  Paulo Barreto nos tempos de repórter –, João do Rio é tido como um precursor entre os escritores que fizeram do ofício de jornalista o seu principal ganha pão. Além de descrever rituais, religiões e toda a alma encantadora do Rio de Janeiro em seus textos, produziu um tipo de ficção que anos depois consagraria o autor de A Vida como Ela É.

– Quando adolescente, no subúrbio do Rio, eu lia fascinado os textos do Nelson Rogrigues, perguntando de onde ele tirava aquelas loucuras todas, aquela coisa do filho apaixonado pela mãe, do pai que comia as filhas. O João do Rio é muito similar. E é anterior. Além das crônicas da cidade, aborda o mesmo universo bizarro, os mesmos assuntos-tabu – diz Ney.

O cantor dirige Marcos Alvisi em Dentro da Noite, monólogo que será apresentado de terça a quinta-feira, às 18h, no Teatro Carlos Carvalho, dentro da programação do 18º Em Cena. No espetáculo, que está com os ingressos esgotados, além do conto que dá nome à montagem, Alvisi interpreta O Bebê de Tarlatana Rosa.

As histórias foram escritas em 1908 e são exemplares do universo que fascinou Ney Matogrosso: na primeira, um sádico narra a um amigo a sua tara bizarra que se constitui em espetar mulheres em um trem suburbano; na segunda, o narrador relembra as aventuras eróticas de um Carnaval tipicamente carioca. Ambas revelam, com ironia, lados obscuros de uma sociedade sexualmente reprimida.

Alvisi as apresentava há alguns anos numa livraria do Rio. Em 2005, Ney foi conferir. Passou suas impressões ao amigo, que em seguida o convidou para uma apresentação particular na casa de outro amigo em Lisboa. Mais uma vez Ney viu. As novas conversas deram origem à parceria.

– Naquele momento, aquilo ali ainda não era teatro. Tinha potencial, mas era preciso mais rigor cênico e textual – relata o diretor. – Me juntei ao projeto com o objetivo de desacelerá-lo. O texto precisava ser dito com mais calma, mais claramente. A trilha já existia, então trabalhamos para potencializar a palavra, o que inclui a criação de um cenário simples, mínimo.
Essa desaceleração, que combina com o ritmo de seu último show Beijo Bandido, teria a ver com uma fase pessoal?

– Não – responde Ney. – Beijo Bandido é um dos meus shows mais teatrais, um dos que mais dão ênfase à palavra. Ao mesmo tempo, no entanto, o novo show que estou preparando não tem nada de desacelerado. Já juntei 16 músicas (de Itamar Assumpção, Jards Macalé, Paulinho da Viola, além de novos compositores) e sinto que as coisas vão para outro caminho. Será algo pop. Comigo é assim: coloco-me à disposição do repertório, seja lá qual ele for.

Vindo do Mato Grosso, onde esteve com Beijo Bandido, o cantor – e diretor – chegaria ontem a Porto Alegre para acompanhar as apresentações de Dentro da Noite. Será seu primeiro Em Cena.
– E, quem sabe, não o último – finaliza.

Fonte: Zero Hora

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