Socos, chutes, torções… e outras coisas de mulher

Da febre inovadora do kung fu nos anos 1970 até a contundência do full contact e jiu-jitsu na década de 1990, o boom periódico das artes marciais volta a figurar como um dos principais assuntos no Brasil.

A bola da vez é o MMA, sigla em inglês para artes marciais mistas, esporte de grande força junto ao público masculino com as disputas do UFC (Ultimate Fighting Championships), principal circuito mundial da modalidade, que realizou evento no Rio de Janeiro semana passada, 13 anos após a primeira passagem pelo País.

Rústico, veloz e agressivo, também tem chamado atenção no esporte o apelo inusitado entre as mulheres, que se brigam pela fatia de preferência e se empenham para acompanhar e curtir as lutas.

“O imprevisível é algo levado ao extremo no MMA, e isso o torna mais que interessante. Esta coisa de ‘tudo pode acontecer’ presente nas competições instiga para valer”, afirma a consultora Giovanna Garcia, 18 anos, de Santo André.

Faixa azul em jiu-jitsu e fanática inveterada pelos golpes demolidores de astros brasileiros como Rodrigo Minotauro Nogueira, que considera “o melhor”, e Maurício Shogun Rua, “o mais bonito”, ela brinca que o apelo entre as mulheres tem sido tão intenso que recodificou a sigla do MMA para ‘Muita Mulher Assistindo’.

“Já deixei várias vezes de sair sábado à noite (quando as lutas acontecem ao vivo) para assistir ao UFC”, conta. “Participo de muitas promoções por sites e falo direto com os lutadores pelo Twitter. A maioria é bem solícita e sempre responde”.

Em casa, Giovanna acompanhou e sofreu com o UFC Rio, evento realizado semana passada. “Chorei como criança quando o Minotauro venceu (o norte-americano Brendan Schaub, por nocaute. Ele é disparado o maior ídolo brasileiro deste esporte”, crava.

POR TABELA
Já a advogada Marisa Donizette, 31 anos, de São Bernardo, o gosto pelo universo das artes marciais mistas veio por intermédio – e insistência – do namorado. “No começo achava absurdo um cara bater no outro até o nocaute”, ela diz. “Mas com o tempo, percebi que é apenas um esporte, e que exige preparo físico, técnico e mental monstruoso. Não tem nada pessoal envolvido nas lutas, os caras até se abraçam no fim”, completa.

A admiração conquistada a motivou no início da prática esportiva. “O MMA é um conceito, ainda não existem academias especializadas aqui no Grande ABC. Comecei então no muay thai (ou boxe tailandês). Aprendi os primeiros golpes e não parei mais. Vicia mesmo.”

A psicóloga Solange Marcolin, de São Caetano, ressalta que a procura feminina pela modalidade é mais uma prova de que os direitos igualitários são tendência plena e atestada na sociedade moderna. “O gosto primitivo pela luta passa a não ter distinção de gênero. A demanda é sempre referendada pela competição. As mulheres não se sentem submetidas e podem romper os possíveis roteiros, por isso abraçam e acompanham a ideia.”

Mãe e filhas treinam e competem juntas
Nas artes marciais mais tradicionais, a presença feminina já é fato atestado fora e dentro dos tatames, ringues e arenas de luta.

Cristina Beraldo Poianas e as filhas Lizandra (13 anos) e Isabella (16) são mais um exemplo disso. Elas se dedicam aos treinos de kung fu no Aramaçan, em Santo André, e competem juntas pelos eventos do calendário da modalidade chinesa nos quatro cantos do Brasil.

A trinca de lutadoras é campeã brasileira de formas: movimentos pré-estabelecidos em que são julgados quesitos como técnica, força e performance. “Mulher sempre é competitiva ao extremo. Nós participamos de torneios juntas, mas em categorias diferentes. Sempre rola cobrança neste sentido de uma com outra. Mas é bom, sempre tem a mais preguiçosa, que entra no clima e treina mais”, afirma.

Mesmo uma modalidade bem diferente do que estão acostumadas, Cristina afirmou que ela e as filhas entraram na onda e sempre acompanham as transmissões de MMA pela televisão. “Sempre dá para aprender ou visualizar algum movimento que usamos, principalmente no UFC. Tudo tem de ser encarado como aprendizado”, conta.

Chefão do UFC é pouco favorável às disputas femininas
O MMA feminino ainda não é disputado no UFC. As disputas entre mulheres estão centralizadas basicamente no Strikeforce, outro evento norte-americano (e co-irmão do Ultimate) e que tem a brasileira Cris Cyborg Santos como campeã da categoria peso pena (até 66 kg).

Outros destaques são as norte-americanas Gina Carano (que também atua como modelo) e Miesha Tate, a grande revelação deste ano.

Quando indagado sobre a possível inclusão dos combates femininos no Ultimate, a opinião do presidente Dana White é sempre direta. “Não existem lutadoras suficientes para estabelecermos ranking. Por isso não tem como começarmos isso (no UFC)”, afirma.

Entre os lutadores, o assunto também repercute. O brasileiro José Aldo Júnior, detentor do cinturão peso pena (até 66kg) tem ressalvas. Para ele, é natural as modalidades terem sempre as categorias masculino e o feminino para se desenvolver. “Mas no caso do MMA é muito extremo. Seria preciso colocar mais regras para as mulheres”, comenta o campeão, casado com uma ex-lutadora.

Por: Fernando Cappelli, do Diário do Grande ABC

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