Experiência dos EUA com cobaias humanas na Guatemala são investigadas

Anita L. Allen, da Universidade da Pensilvânia

Uma comissão do governo dos EUA que investiga por que cientistas deliberadamente infectaram com doenças sexualmente transmissíveis pessoas saudáveis na Guatemala, nos anos 40, para testar medicamentos.

A investigação deverá apresentar novas diretrizes éticas para a testagem de drogas. A comissão divulgou ontem detalhes escabrosos dos procedimentos e concluiu que os médicos envolvidos sabiam que sua conduta era antiética.

– Os pesquisadores sabiam que as experiências eram antiéticas e as conduziram do mesmo jeito – afirmou um dos membros da comissão, Raju Kucherlapati, da Escola de Medicina de Harvard.

Pelo menos 5,5 mil prisioneiros – pacientes mentais, soldados, prostitutas e até crianças – participaram das experiências. Dentre elas, 1,3 mil foram deliberadamente infectadas com doenças como sífilis e gonorreia para testar as propaladas vantagens da recém-descoberta penicilina. Pelo menos 83 delas morreram, embora a comissão não tenha conseguido estabelecer quantas das mortes foram diretamente causadas pelas experiências.

Os investigadores da Comissão para Estudos de Bioética revisaram mais de 125 mil documentos de arquivos públicos e privados no país. Além disso, conduziram uma viagem ao país da América Central.
– Condutas cruéis e desumanas aconteceram – afirmou Anita L. Allen, da Universidade da Pensilvânia. – São violações muito graves dos direitos humanos.

Num dos casos descritos na audiência de ontem, uma mulher que havia sido infectada por sífilis e que, claramente, estava morrendo da doença, não recebeu tratamento algum. Pior: médicos introduziram pus infectado com gonorreia em seus olhos e outros orifícios de seu corpo para infectá-la com outra doença. Ela morreu seis meses depois.

Segundo a comissão, prisioneiros foram infectados depois de fazerem sexo com prostitutas doentes ou que haviam sido propositalmente infectadas pelos pesquisadores. Além disso, os médicos colocavam bactérias em feridas que eles mesmos haviam aberto nos pênis, rostos e braços dos prisioneiros. Em alguns casos, material infectado foi injetado em suas colunas, relatou a comissão.

Durante muito tempo, os testes realizados na Guatemala foram mantidos em segredo. A situação só veio à tona recentemente, depois de denúncia feita pela professora Susan Reverby, da College Wellesly. O objetivo da comissão, agora, é estabelecer parâmetros mais rígidos para impedir que pessoas sejam usadas como cobaias em testes de novos remédios. Embora médicos digam que isso jamais se repetiria, há o temor de que laboratórios farmacêuticos testem novas drogas em países onde a legislação de proteção aos pacientes é menos severa, como alguns da África.

Em entrevista à agência de notícias Reuters, Susan Reverby afirmou:
– É muito fácil dizer ‘ah, mas nós nunca faríamos algo assim’. Precisamos pensar sobre o que estamos fazendo hoje que poderá parecer horrível daqui a 20 anos.

O caso lembrou o escândalo em que centenas de negros americanos com sífilis foram acompanhados durante anos por médicos – que queriam estudar a progressão da doença – sem receber tratamento algum. O estudo durou inacreditáveis 40 anos, de 1932 a 1972, e foi feito entre a população pobre de Tuskegee, no Alabama. Foi justamente pesquisando sobre essa história que Reverby tomou conhecimento do experimento na Guatemala. O responsável pelo cruel teste na América Central, John Charles Cutler, participou também das experiências em Tuskegee.

Bem mais curta do que a experiência de Tuskegee, a da Guatemala foi conduzida entre 1946 e 1948, durante a presidência de Harry Truman. Em outubro do ano passado, Obama se desculpou formalmente pelo ocorrido.

As experiências foram conduzidas por um médico do governo americano, Cutler, e financiados com verbas federais. Além disso, sabia-se que tais experiências jamais poderiam ser feitas em solo americano porque eram proibidas por lei. No caso da Guatemala – diferentemente do que ocorreu no Alabama -, a sífilis foi introduzida deliberadamente em pessoas até então saudáveis.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doença dos EUA reconheceram posteriormente “o projeto e a condução dos estudos foi antiética em muitas aspectos”.

Da redação, com informações da Agência Globo e da Agência Reuters

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