Gasolina, cafeína e vermífugo são misturados ao crack e cocaína

Inmetro e Instituto de Criminalística fazem mapeamento inédito

A cocaína e o crack vendidos em bocas de fumo no país são misturados a gasolina, cafeína, fermento, anestésicos e até vermífugo.

Em alguns casos, a droga é o que menos compõe os papelotes e pedras comercializadas por traficantes. A identificação dos produtos misturados às drogas foi feita pela primeira vez pelo Inmetro e o ICCE (Instituto de Criminalística Carlos Éboli) do Rio.

O objetivo é produzir uma cartilha para que médicos considerem também o efeito dessas substâncias durante o tratamento.

Polícia e usuários sempre souberam que traficantes misturam pós brancos mais baratos que as drogas, como cal e fermento, para lucrar. Mas a análise, com base em apreensões feitas pela polícia do Rio em 2009 e 2010, surpreendeu os peritos.

Em quase metade das amostras de cocaína em pó analisadas, houve presença de anestésico local. O objetivo é ludibriar o usuário sobre a pureza da droga.

“Para saber se o pó é bom ou não, o usuário coloca na língua e vê se fica dormente. O traficante, sabendo disso, põe um anestésico, vendido em farmácia, que tem esse efeito. Por isso não aparece no crack”, disse Bruno Sabino, perito do ICCE e pesquisador do Inmetro.

A substância diminui os batimentos e, associado à cocaína, pode levar à parada cardíaca.

O adulterante mais comum é a cafeína, achada em 58% das amostras de cocaína. Ainda raro, mas preocupante, é o aparecimento do levamisol, vermífugo usado em cavalos. Nos EUA, a substância está em 70% da coca.

“O médico, às vezes, desconhece a intoxicação [de outras substâncias]”, disse o diretor de programa do Inmetro, Wanderley de Souza.

Presentes em quase todas as amostras, resíduos de gasolina ou óleo diesel podem causar câncer. Os produtos são usados na purificação da droga até o produto final.

Outra surpresa é a concentração de cocaína -droga usada também na produção de crack. Em média, apenas 20% do pó é, de fato, cocaína. No crack, a droga é cerca de 50% da pedra.

“Com esse tratamento, podemos saber os tipos de crack e cocaína vendidos no Rio e tentar identificar os fornecedores”, diz Sabino.

As substâncias encontradas em cada apreensão podem ajudar a identificar o fornecedor da droga. A Polícia Federal monitora vendas excessivas de produtos lícitos usados na produção.
Pessoas já foram presas por desvio de cafeína, por exemplo.

Fonte: Folha de S.Paulo

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