Ativista mentiu sobre homossexualidade para doar sangue

Por Carol Pires*

Outro dia contei sobre o avanços nos direitos civis dos homossexuais na Argentina, que já podem casar-se no civil. A presidente Cristina Kirchner impulsionou o projeto no Congresso Nacional, e a Argentina foi o primeiro país latino-americano a aprovar o casamento gay. Foi um passo relevante, mas não concludente. O preconceito continua.

Assim como no Brasil, o regulamento do Ministério de Saúde argentino restringe a doação de sangue por parte de homossexuais masculinos.

Para os homens pergunta-se: teve relações com outro homem nos últimos 12 meses? Para as mulheres: nos últimos 12 meses, teve relações com um homem que por sua vez teve relações com outro homem? Quem responde sim a essas perguntas não pode doar sangue.

Na sexta-feira, conversei com Facundo Nicolás García, secretário de Diversidade Sexual do Partido Socialista. A história dele reflete o preconceito embutido no questionário. Facundo estudou Ciências Sociais na Universidade de Buenos Aires e, desde cedo, é ativista do movimento LGBT na Argentina. Aos 17 anos contou para a família sobre sua orientação sexual. Sempre recebeu apoio, me disse.

Começou a viajar para participar de debates sobre diversidade sexual ainda adolescente, e ingressou no Partido Socialista quando a sigla fundou a primeira secretaria de diversidade sexual.

Recentemente a mãe dele caiu doente, precisou submeter-se a uma cirurgia de emergência e precisou receber transfusão de sangue. No entanto, pelas regras do ministério da Saúde, Facundo não podia doar sangue para a própria mãe porque era homossexual e tinha vida sexual ativa.

“Tive que mentir para poder doar sangue à minha mãe. Não somos uma família numerosa, e tendo consciência do meu estado de saúde, quis doar. Faço exames regularmente e estava tranquilo”, conta. “Mas sempre gera raiva se deparar com esses tipos de pergunta. São discriminatórias”.

Todo doador de sangue deve ser saudável, isso é inquestionável. Os exames laboratoriais são imprescindíveis para garantir uma doação segura, e o questionário é importante para evitar que escape dos exames os períodos de janela imunológica, quando a pessoa já está infectada mas o corpo ainda não produziu anticorpos.

No entanto, os hábitos sexuais de cada doador deveriam ser mais importantes do que o sexo de seus parceiros, uma vez que os homossexuais não são mais o único grupo de risco. A infecção pelo HIV cresce também entre mulheres e pessoas com mais de 50 anos.

O último informe do ministério da Saúde da Argentina diz que as relações sexuais desprotegidas seguem como principal via de transmissão do vírus. Entre 2007 e 2009, 84% das mulheres e 88% dos homens diagnosticados tinham se infectado assim. No caso dos homens, 49% foram infectado através de uma relação heterossexual, e 36% por uma relação homossexual.

Facundo defende que seja observada a prática de risco e não mais grupos de riscos. “O conceito de grupos de risco é anacrônico. Os agentes de saúde hoje falam em práticas de risco: as perguntas devem apontar a profilaxia nas relações sexuais. Não interessa com quem se tem relações sexuais, sim o uso de preservativo”.

Este ano, na província de Río Negro, no Sul da Argentina, o modelo de questionário foi reformulado, e as perguntas sobre orientação sexual foram cortadas. O Partido Socialista portenho propõe reformular o questionário em todo o país.

No texto do projeto – já aprovado pela comissão de Saúde da Câmara de Deputados – o partido defende que ao incluir este tipo de perguntas sobre a opção sexual dos doadores, o ministério invade a esfera de privacidade das pessoas e impõe um critério raso e claramente discriminatória: “A doação de sangue é um ato de solidariedade e de responsabilidade social, e hoje, sem nenhuma razão válida, estamos privando essa possibilidade a um importante número de pessoas”.

*é jornalista. Foi repórter do Estadão, iG e Blog do Noblat. Hoje mora em Buenos Aires.

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