ORLANDO, 12 DE JUNHO

ORLANDO 1Por Lucas Goulart*

Nesse sábado, dia 12 de junho, um atirador entrou na danceteria Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos, matando – com as estimativas feitas até o momento – 50 pessoas, e ferindo 53. Atos como esse – de cunho obviamente homofóbico – atingem à população LGBT como um todo. Nós do SOMOS compreendemos que, por mais que tenhamos vivências distintas – tanto em relação aos norte-americanos quanto em relação às diferentes populações que compõe a sigla – é impossível não nos identificarmos com aquelas pessoas, que perderam suas vidas por um ato chocante de violências por simplesmente desafiarem a cruel lógica da heteronormatividade – norma que outorga que apenas pessoas heterossexuais seriam passíveis da segurança que traz ser considerado “normal”.

Contudo, por mais chocados e estarrecidos que estejamos, temos que fazer uma reflexão acerca desses acontecimentos – e também do que temos visto ser dito sobre ele. Primeiramente, reconhecemos que a tendência de simplesmente culpar indivíduos – imputando-os doenças mentais ou “fanatismos religiosos” – ou responsabilizando organizações como o Estado Islâmico, por exemplo, são exercícios de construção de alvos fáceis e exteriores. Essas estratégias acabam por não questionar as lógicas que possibilitaram essa barbárie, e muito menos construir uma crítica que reveja o nosso papel enquanto sociedade nisso tudo. Muitos dos contextos que podemos atribuir como inerentes ao massacre – a manutenção da heteronormatividade, que mantém pessoas que não se enquadram nas normas de gênero e sexualidade como “doentes”, a necessidade de se ignorar a homofobia (ou ainda criar uma correlação absurda como a “heterofobia”), a negação da vulnerabilidade de gays, lésbicas, bissexuais e principalmente transexuais (qualificadas como “vitimismo”), a manutenção de uma cultura de ódio religioso, e ainda a ideia de que armas de fogo trazem “segurança” e deveriam ser portadas abertamente por cidadãos – tem claros representantes em nosso país, que ganham mais adeptos a cada dia. Muitos desses qualificaram o massacre como “um ataque terrorista islâmico” simplesmente para apagar as marcas claramente genocidas em relação à identidade das pessoas atacadas. Dessa maneira, podemos apenas considerar como “homofóbica” a negação de que esse tenha sido um ataque contra a população LGBT, mantida por instituições políticas que se beneficiam – simbolicamente e monetariamente – da exclusão e da violência.

Ao contrário do que se imagina em um primeiro momento, a “homofobia” (assim como lesbo, trans e bifobia) não é um termo que identifica simplesmente a agressão física ou verbal, mas da própria noção de que essas identidades não merecem o mesmo acesso a direitos e recursos dos cidadãos heterossexuais. O fundamentalismo, o fanatismo e a violência contra populações marginalizadas não são produzidos por indivíduos isolados – esse é apenas o final do processo – mas sim propiciadas por contextos sociais excludentes, mantidos tanto por relações institucionais (a proibição de homens homossexuais e bissexuais de doarem sangue, o preconceito do mercado de trabalho com pessoas transexuais, maus tratos em instituições como delegacia e locais de acesso à saúde e assistência, por exemplo) quanto por relações do dia a dia (piadas homo/lesbo/transfóbicas, violências familiares contra LGBTs, etc). A violência vivida por pessoas LGBT no Brasil ainda é altíssima – somos, de acordo com algumas estimativas, o país que mais mata mulheres transexuais no mundo, e onde aproximadamente uma pessoa LGBT é agredida por hora.

A tragédia em Orlando nos choca pode ter sido um evento brutal e único na sociedade norte-americana, mas os contextos que produzem o mesmo ódio daquele que puxou o gatilho contra aqueles que não se adequam à norma heterossexual é algo que ainda se encontra muito próximo de nós, e nossos esforços devem estar concentrados em contrapor e combater as instituições que se empenham em manter as normas que violentam a população LGBT todos os dias.

* Lucas Goulart é doutorando em Psicologia e mestre em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS, psicólogo formado pela UNISINOS, desenvolve pesquisas nas áreas de Gênero, Sexualidade e Cibercultura. Atua como Colaborador Assistente junto à instituição. lucasgoulart@somos.org.br

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