Sobre homenagens e reflexões

Bernardo Amorim

Hoje, dia 8 de março, “comemora-se” o dia internacional da mulher. Comemoração é o termo mais usado, ainda que não seja o mais apropriado; afinal, a data marca historicamente um brutal assassinato de mulheres que lutavam pela reivindicação de seus direitos trabalhistas. Assim, a própria história esvazia o sentido de comemorar, mas sim de refletir sobre avanços, conquistas e tensões vividas por uma afirmação diária de visibilidade e conquista de reconhecimento e espaço no cotidiano nitidamente desenhado para o masculino.

As homenagens ao dia da mulher são notadamente tomadas pelo conceito de mães, guerreiras, delicadas, elegantes. Recebem flores, ouvem “o mundo é de vocês”, “o que nós seríamos se não fossem vocês”. Tomam conta do lar como ninguém. Arrebanham a família, mantém a ordem no relacionamento e na vida conjugal. Cuidam dos filhos.

E, a partir das homenagens, aparece inocentemente a deturpação da reflexão e a estigmatização do papel limitado da mulher no teatro de papéis impostos da sociedade. Pois, independente da intenção, o machismo aparece nas pequenas coisas. No homem que não sabe cozinhar e agradece à mulher. No homem que não leva jeito com o cotidiano de criação de filhos, e agradece à mulher. Assim, a mulher, no seu dia de reflexão e no histórico de imposição heroica, morrendo pela luta de direitos básicos, se vê jogada nos domínios de um modelo predeterminado e condicionado de ser.

Se as mulheres e o feminino merecem homenagens pelo dia de hoje, é pela condição de inquietude frente à imposição do mundo em querer estabelecer conceitos de “como ser mulher”. É querer cada vez mais quebrar paradigmas e conceitos, afirmando-se diariamente contra condutas que tentam diminuir seu status de pessoa na sociedade. É, por mais paradoxal que seja, lutar pela condição de sujeita de direito, buscando garantias, lutando contra desigualdades, questionando a necessidade medrosa e antiga de dividir o mundo em um sistema binário de gênero e cartas marcadas de desempenhos de funções, levantando a bandeira do direito de decidir sobre seu corpo.

Homenagens sim, mas nunca desvinculadas de reflexão. O mundo é de tod@s nós, que consigamos partilhar dele com igualdade, e que fatos históricos sirvam de inspiração e não caiam em um cômodo esquecimento.

Bernardo Amorim, advogado especialista em Direito Civil com Ênfase em Família e Sucessões, diretor do Núcleo Jurídico do SOMOS.

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