Neste carnaval, se samba pra trás

Este seria o slogan mais adequado para a campanha que marca uma série de ações retrógradas e moralistas afirmadas pelo Governo Federal atualmente, em relação à população LGBT.

Segundo informações de listas de discussões e de notícias já exploradas pela mídia, a peça que mostra um casal gay e que faz parte da Campanha de Prevenção ao HIV/aids para o Carnaval, promovida pelo Ministério da Saúde, teria recebido orientações da Presidência da República para ser readequada, em virtude das “cenas explícitas de carícias entre os gays”.

Sua sinopse: dois rapazes se conhecendo numa balada. Após carícias e sorrisos, descobrem que não têm camisinha. Surge uma fada que entrega o preservativo ao casal, dá uma lição de moral e vai embora. E fim.

Gostaria de saber se foi este mesmo vídeo visto pela Presidência da República. Pois no vídeo que assisti, já excluído do Youtube, só pude perceber que, apesar da intenção de mostrar um casal homossexual, mesmo que novamente de forma estereotipada, o material se mostrava raso e ingênuo. Pergunto também por qual filtro moral passou esta análise, que aponta para que os vídeos sejam reeditados porque há carícias explícitas entre homens? Qual o problema do afeto? E isso que nem beijo tinha.

Como uma campanha que tem como um dos focos prioritários a população LGBT, sobretudo jovens gays e bissexuais que são extremamente vulneráveis à epidemia de HIV/aids, pretende exibir um produto tão desconectado da realidade?

Há bastante tempo a expertise da Militância das ONG/Aids e LGBT já aponta sobre o fracasso das campanhas de prevenção quando estas estão desconectadas da vida e do mundo real. Vê-se também que questões de saúde básica para a população LGBT vêm sendo discutidas incessantemente em diversas conferências, assim como existe uma inoperância inexplicável dos governos municipais e estaduais na execução de seus Planos de Enfrentamento à Epidemia entre Gays, Travestis e outros HSH. O enfrentamento à epidemia de HIV/aids é uma questão de Saúde Pública. E ações dirigidas, bem formuladas e bem intencionadas como deveria ser esta campanha são urgentemente necessárias.

Boato ou não, a única resposta oficial do Ministério da Saúde é que o vídeo será lançado às vésperas do Carnaval e que não será divulgado na TV e sim, em bares e boates de freqüência LGBT. O que não garante sua veiculação e alcance satisfatórios, visto que a maior parte da população LGBT não freqüenta estes espaços e os jovens menores de idade, principalmente, não têm acesso.

Esta medida evidencia novamente retrocesso e falta de compromisso político do Governo Federal com a população LGBT. O “canetaço moralizante” também assina que a população LGBT não é prioridade, e que é moeda de troca fácil e barata nas rodadas de acordos políticos.

Se não for isso, então trata-se de um problema grave de gestão de recursos públicos. Pois, qual a finalidade de se aplicar uma expertise criativa envolvendo gestores e representantes da sociedade civil, de criar uma campanha ampla e dirigida ao um público específico e em seguida, censurá-la?

Campanhas afirmativas voltadas à diversidade sexual são importantes e necessárias, pois são componentes chaves na mudança de paradigmas sociais. Esconder o fato, censurar o beijo, é manter a população LGBT na invisibilidade. É reforçar a barreira do preconceito e da discriminação.

Infelizmente, estamos correndo o risco de vivenciar mais um Carnaval onde no desfile a evolução vai pra trás, no samba triste a população LGBT é rebaixada e na classificação final, é o Governo quem samba na nossa cara.

 

 

 

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