São Paulo: Mostra exibe toda a sexualidade ambígua e perturbadora da obra de Alfred Hitchcock

Começou na quarta-feira (15) a mais completa mostra sobre a obra do cineasta inglês Alfred Hitchcock (1899-1980). “Hitchcock” é o nome da retrospectiva, que já passou pelo Rio de Janeiro e agora desembarca em São Paulo. De 15 de junho a 24 de julho, o projeto exibe 59 filmes – ou seja, toda a produção do chamado “Mestre do Suspense” -, além de 127 episódios de séries de TV dirigidos e/ou produzidos por ele.

Um dos mais famosos cineastas da história do cinema – e dos poucos, ao lado de Pedro Almodóvar, Federico Fellini e Quentin Tarantino, cujo sobrenome gerou adjetivo: “hitchcockiano”, para definir situações ou climas de suspense -, Hitchcock está definitivamente inserido na cultura pop moderna, graças principalmente à impressionante sequência de filmes que realizou na década de 50 e início de 60.

Mas a história dele começa bem antes: ainda na Inglaterra, na década de 20, no período do cinema mudo. Hitchcock dirigiu curtas e longas mudos em sua terra natal, e já nessa precoce produção surgiam suas famosas obsessões e paranoias – como no clássico “O Inquilino” (26).

Na década de 30, já no cinema falado, ele foi desenvolvendo seu estilo, e começou a dirigir obras que marcariam, como “O Homem Que Sabia Demais” (34, que ele mesmo refilmou nos EUA em 56) e “Sabotagem” (36).

Mas foi na década seguinte que ele decolou de vez. Em 1940, levado aos EUA pelo poderoso produtor David Selznick – de “…E O Vento Levou” (39) -, Hitch dirigiu “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, que ganhou o Oscar de Melhor Filme.

O filme, inspirado no livro homônimo de Daphne du Maurier – que por sua vez teria se inspirado, ou plagiado, no romance “A Sucessora”, da brasileira Carolina Nabuco, que deu origem à novela global de 1978 -, entre tantas interpretações, suscita pelo menos uma de teor gay: a terrível governanta da mansão, sempre zelosa pela memória de sua patroa falecida – a tal Rebecca -, seria na verdade apaixonada pela morta. Até hoje fica em aberta essa questão da suposta lesbiandade da governanta.

A partir dali, Hitch ficou de vez nos EUA, onde realizaria todos os seus grandes clássicos. Ainda nos 40, ele dirigiu “Festim Diabólico” (48, foto), que além de todo o brilho técnico – foi rodado como um espetáculo de teatro (era inspirado na peça “Rope”), quase sem cortes; o filme tem cerca de sete cortes, necessários para efetuar a troca dos rolos de película na câmera; de resto, é praticamente um plano-sequência único -, trazia em sua trama um subtexto gay fortíssimo.

O casal de rapazes (interpretado por Farley Granger e John Dall) oferece um jantar em seu apartamento, apenas para desafiar seu antigo professor. O jantar é servido em cima de um baú, em cujo interior está o cadáver de um colega que os dois assassinaram.

O caso entre os dois rapazes é insinuado em diversos momentos, mas – devido ao momento em que foi produzido -, não fica exatamente explícito. Hoje, revendo o filme, diante de tantas referências já conhecidas, é espantoso imaginar que para muita gente esse detalhe passou despercebido na época. O próprio ator Farley Granger – recentemente falecido, e que atuou ainda em outro momento genial de Hitch, “Pacto Sinistro” (51) -, que interpreta um dos rapazes, comentou décadas depois sobre o assunto, dizendo que os atores foram orientados a interpretar, sim, um casal.

Mas com temas gays, lésbicos ou não, o fato é que toda a obra de Hitchcock vive de uma constante tensão sexual, seja ela de qualquer natureza. Seus personagens se veem às voltas com suas repressões e culpas sexuais, seus desejos latentes prestes a explodir, margeando todas as tramas de seus filmes – e interferindo na ação.

Assim acontece com Grace Kelly em “Ladrão de Casaca” (55), encarnando a moça refinada que se entrega ao sexo no sofá com Cary Grant em meio à explosão dos fogos de artifícios; ou a mesma Grace, louca para transar com o namorado James Stewart em “Janela Indiscreta” (54), mas ele só quer saber de ficar sozinho vigiando seus vizinhos pela janela, manipulando uma comprida – e fálica! – lente fotográfica, numa provável simbologia de masturbação.

Ou no caso da quase necrofilia de James Stewart em “Um Corpo que Cai” (58). Apaixonado por Kim Novak, que ele julga estar morta, tenta transformar uma moça – na verdade a própria Kim, que não morreu – em uma cópia da outra, para de novo possuir a mulher que não consegue esquecer.

Também em “Marnie, Confissões de uma Ladra” (64), com a cleptomaníaca Tippi Hedren evitando transar com o marido Sean Connery. E ele tendo que lidar com a frigidez sexual da esposa.

Ou ainda em “Os Pássaros” (63), onde a mesma Tippi tenta seduzir Rod Taylor, mas o moço, embora com look de garanhão, vive reprimido pela mãe superprotetora Jessica Tandy. Como uma espécie de castigo às investidas sexuais de Tippi, a cidade é perseguida pelos ataques dos sinistros pássaros.

Mas em matéria de mães superprotetoras, nada foi mais desesperador do que a famosa mãe de Norman Bates (Anthony Perkins) em “Psicose” (60). Num caso de dupla personalidade/transexualidade, o tímido e reprimido Norman conserva no quarto o cadáver da mãe, e se traveste como ela, assumindo a personalidade da falecida – e assim atuando na famosa sequência do chuveiro, talvez a cena mais lembrada do cinema, quando mata a facadas a bela Janet Leigh.

Outro componente sexual está nas famosas “loiras geladas” de Hitchcock. O cineasta declarou que preferia colocar na tela as mulheres elegantes, finas e gélidas, mas que na cama “viram prostitutas”. Ele considerava esse tipo de mulher muito mais interessante do que divas como Marylin Monroe – que, segundo o diretor, era tristemente vulgar por trazer o sexo estampado no rosto, sem mistérios nem nuances.

Assim, Hitch registrou diversas loiras, como as citadas Tippi em “Os Pássaros” e “Marnie”, Kim em “Um Corpo que Cai”, Janet em “Psicose”, Doris Day em “O Homem Que Sabia Demais” (56), Julie Andrews em “Cortina Rasgada” (66), e claro, a preferida: Grace Kelly, que fez com ele “Disque M Para Matar” (54), “Janela Indiscreta” (54) e “Ladrão de Casaca” (55) – o último, filmado em Mônaco, onde ela ficou para sempre, já que se casou com o Príncipe Rainier, abandonando o cinema; diz a lenda que Hitch nunca se perdoou, pois perdeu sua loira predileta, por quem seria platonicamente apaixonado.

Não por acaso, o diretor foi apontado não só como o mestre do suspense, mas também especialista em dirigir cenas de assassinato como se fossem cenas de sexo; e dirigir cenas de sexo como se fossem cenas de assassinatos. Até juntar as duas coisas em seu penúltimo filme, “Frenesi” (72), onde o assassino – um tipo efeminado com ares de Oscar Wilde – estuprava mulheres para depois matá-las, enforcando-as com gravatas.

E talvez seja por isso que a obra do cineasta continue eterna, atual e obrigatória: por trás de todos os engenhosos roteiros de suspense e de toda a técnica perfeita e brilho artístico, existe o componente sexual latente, que continua se comunicando com o público – já que, por incrível que pareça, este continua, ainda hoje, tendo dificuldades, constrangimentos e medos ao lidar com suas próprias emoções sexuais, desejos e taras. O sexo ainda é tabu – e graças a esse tabu, o cinema gerou obras inesquecíveis como as de Alfred Hithcock. Só nos resta revê-las em tela grande e em película nesta mostra imperdível.

Serviço:
Hitchcock
De 15 de junho a 24 de julho no CCBB
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro – SP
De 8 a 17 de julho no CINESESC
Rua Augusta, 2075 – Cerqueira César – SP
Programação Completa no SITE

A Capa.

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