Documentário sobre Gretchen tem pré-estréia em Porto Alegre

Três músicas e o rebolado. Foi com essas armas – e somente com elas – que, escondida sob o pseudônimo Gretchen, a carioca Maria Odete Brito de Miranda, 51, pagou todas as suas contas nos últimos 30 anos.
Dançando em moto-contínuo “Freak Le Boom Boom” (1979), “Conga Conga Conga” (1981) e “Melô do Piripipi” (1982), seus únicos hits nessas três décadas, ela sustentou cinco filhos naturais – e cinco pais diferentes- e, agora, banca o leite do sexto, adotado, mas resolveu adotar outras estretégias de sobrevivência. Desta vez, como política.

O documentário Gretchen Filme Estrada segue a campanha da cantora e dançarina para a prefeitura de Itamaracá em 2008, mas poderia ser em 2010 também. Política e showbiz se misturam eleição após eleição, e sempre haverá no Brasil, como em qualquer lugar, um atleta aposentado ou um artista no ostracismo pleiteando um salário público que não exija diploma ou concurso.

Diploma Maria Odete tem – embora Gretchen não necessite dele. No filme dirigido pela gaúcha Eliane Brum e por Paschoal Samora mostra Gretchen, em 2008, a beira de completar 50 anos. Sua agenda se resumia a apresentações com playback de congas e piripiris por circos no interior do Nordeste. Gretchen concorre à prefeitura porque quer devolver a Itamaracá um pouco do que a ilha lhe deu nos dez anos em que lá mora, diz ela.

Obviamente, como o teatro político desmancha com o mais leve toque, rapidamente a câmera captura os motivos da candidatura: as contas de Gretchen estão atrasadas, as estradas de terra que separam os circos parecem cada vez mais longas. “Só meu piripiri não tá dando”, reconhece a artista. Não é a primeira nem a última candidata a escolher a política por carreira e não por vocação – até aí, o retrato feito por Eliane Brum e Paschoal Samora não é uma exclusividade de Gretchen.

O filme começa a trilhar um caminho mais particular quando intercala os palanques e os shows: o contato da candidata com o eleitorado e o contato da dançarina com o espectador. Gretchen Filme Estrada se torna, então, não um filme sobre máscaras públicas (elas também caem com facilidade), mas sobre o fazer político em si. Mais especificamente, o modo como se dá a troca de interesses nesses dois circos, o literal e o metafórico. E aí a verdade transparece nos atos e mesmo nos gestos.

Nas reportagens que Elaine Brum fazia para a revista Época, antes de trocar o jornalismo pelos documentários, já era evidente essa preocupação com o ponto de vista anônimo da população. Em Gretchen Filme Estrada, as falas dos populares sempre têm algo de tragicômico, mas nunca perdem autenticidade. Já Gretchen, que afinal de contas consentiu com o documentário e está sempre ciente do registro, modula o seu discurso de acordo com a ocasião: se quer apagar um passado constrangedor, diz que a Gretchen “é uma personagem”, se vai mal nas pesquisas, fala com rancor que não precisa ser candidata porque é famosa, um ícone, “como Leila Diniz”.

Há na direção um desejo constante de transparência, enfim, e isso acaba causando o único momento irregular do filme, quando Gretchen desaba no choro, no ombro de sua secretária, e a narração em off faz um mea culpa desnecessário, dizendo que documentaristas e documentada têm um acordo de interesses, “todos usam todos”. É um parênteses a mais porque, quando Gretchen chora, a câmera já recua para mostrar o microfone de boom e a equipe de filmagem ao redor dela. É o desarme da encenação, à maneira Eduardo Coutinho. O texto se torna redundante porque a ética já está inscrita na imagem. De um jeito ou de outro, sempre está.

E você poderá conferir neste sábado, 20 de agosto, no Instituto NT (Marquês do Herval, 1.111) em sessões, com entrada franca, às 14h (com presença da diretora Eliane Brum) e às 17h. 

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *