VIDAS TRANS: MARTÍRIOS COTIDIANOS

por Sandro Ka*

Uma pessoa LGBT é agredida a cada 24 horas no Brasil. Os dados oficiais do Governo Federal são baseados nas denúncias do Disque 100 e monitorados conjuntamente por organizações da sociedade civil. Os números indicam que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais são cotidianamente vítimas de inúmeras formas de violência motivadas pela homolesbotransfobia – uma forma de preconceito que se caracteriza pelo ódio e aversão a pessoas que vivem e expressam sua sexualidade diferente dos padrões entendidos como “normais”. Nesta linha de pensamento, somente a heterossexualidade (relação afetiva e sexual entre pessoas de sexo/gêneros diferentes) e a cisgeneridade (quando a pessoa se reconhece e se identifica com o sexo/gênero que foi designada em seu nascimento) seriam consideradas como formas “corretas” de viver a orientação sexual e a identidade de gênero, respectivamente.

A população de travestis e transexuais é a mais vulnerável a todo tipo de violência, desde a negação de direitos básicos sociais até agressões físicas que muitas vezes levam à morte. Segundo relatório preliminar da Rede Trans, já foram assassinadas 92 travestis e transexuais neste ano no Brasil por crimes motivados pelo ódio. E esses são somente os dados registrados. Na ausência de políticas públicas que protejam essa população e que promovam o respeito à diversidade sexual, sem sombra de dúvida, muitas violações continuam ainda à margem, longe dos registros oficiais.

Alguns casos sequer são revelados, nem vêm ao conhecimento do grande público, pois tratam-se de processos de violência muitas vezes silenciosos, quase invisíveis, embora corriqueiros. É no dia-a-dia que eles se estabelecem e vão marcando corpos e vidas: seja na impossibilidade de frequentar um banheiro de acordo com seu gênero de identificação, no tratamento que não respeita o nome social, nas agressões ou nas rejeições que levam para longe da escola e muitas vezes ao abandono das famílias. Como vidas marcadas, as vivências de pessoas trans podem ser compreendidas como martírios cotidianos.

Revelando memórias de uma vida marcada, a artista montenegrina Marina Reidel apresenta sua primeira exposição individual Via Crucis: do Corpo Objeto à Consagração, de 13 a 30 de setembro, na Galeria de Arte Loide Schwambach, na Fundarte, local onde leciona como professora de Artes há 23 anos.

Com uma narrativa autoficcionada, a artista apresenta uma instalação composta por objetos, oratórios, armários e capelas, que sugerem ao público visitante o compartilhamento de sua trajetória de vida. Mulher trans e ativista de Direitos Humanos, Marina recria momentos de descobertas, dores e transformações, como metáforas do martírio e da paixão de Cristo que, segundo a tradição católica, incompreendido, condenado e traído pelos homens, carrega sua cruz. Ao espelho de uma vida em transformação, a artista refaz esses passos como nas estações, mas re-significando momentos de seu caminho.

É sua própria história de vida – sua vivência trans – que legitima a apresentação do seu mundo. Trata-se da vivência de uma experiência de alteridade, pois é de seu lugar de fala que convida o público a vivenciar memórias, desejos, medos e sonhos.

Ao apresentar seu universo, a artista nos aproxima de uma vida inventada que insiste em existir. Como na Via Crucis, as estações da artista são passos de muitas travestis e transexuais que, a seu modo, tentam viver e sobreviver à vida. São passos que perfazem caminhos e se guiam a um inevitável destino: a consagração inscrita na dor e no prazer de ser o que se é.

*Sandro Ka é artista visual, doutorando e mestre em Artes Visuais (PPGAV/UFRGS), especialista em Ética e Educação em Direitos Humanos pela FACED/UFRGS e graduado em  Artes Plásticas (IA/UFRGS). Coordenador Financeiro do SOMOS, também desenvolve projetos de pesquisa, gestão e produção temáticos em Arte e Cultura LGBT.
sandro.ka@somos.org.br

Texto originalmente publicado no Jornal O Progresso, 09/09/2016, Montenegro/RS.

 

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