Dia da visibilidade trans

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por Vincent Goulart*

O ódio e a ignorância têm ganhado força no país. Não que não existissem antes, mas atos cruéis e discursos perigosos têm sido legitimados e reforçados a partir de um governo que lidera com ódio, truculência, cinismo e, acima de tudo, banhado a sangue. Sangue de povos originários; sangue da população negra, LGBTT, periférica e pobre. Mãos pintadas de vermelho pelo sangue de Marielle Franco e de cada uma e cada um que perdemos. Sangue de gente como a gente.

País que nasceu do racismo, do machismo, da misoginia, da intolerância religiosa, da homofobia e da transfobia. País que, para nascer, matou, torturou e apagou o passado e a cultura de muita gente, através de colonizadores europeus que impuseram sua branquitude e seu eurocentrismo, sua religião, como se fosse a grande verdade. Hoje, ainda pagamos por isso.

Não seria de se espantar que este mesmo país seja o que lidera o ranking de assassinatos de pessoas trans, principalmente mulheres trans e travestis. País este que, ao matar mais pessoas trans no mundo inteiro, é o que mais consome pornografia trans também.

De 1/01/18 a 30/09/2018, o projeto Trans Murder Monitoring reportou que 369 pessoas trans foram assassinadas no mundo inteiro por serem trans. Desse número, o Brasil lidera com 167 mortes. A maioria das vítimas tratavam-se de mulheres trans e travestis negras, trabalhadoras sexuais e indígenas. Os dados são subnotificados e não há informações exatas do número de assassinatos, o qual deve ser maior ainda que registrado.

Somado a esses dados, o projeto Transgender Adolescent Suicide Behavior (Comportamento Suicida do Adolescente Transgênero) apurou, durante 36 meses, comportamentos suicidas de jovens cis e trans de faixa etária entre 11 e 19 anos. 50,8% dos casos de suicídio são de homens trans.

Ou seja, pessoas trans e travestis são a população que mais é assassinada e é a que mais comete suicídio. Suicídio motivado por transfobia: um assassinato nas mãos do Estado. Assassinatos/suicídios motivados pela transfobia existente nas estruturas e perpetuadas pelas instituições que compõem a nossa sociedade. O assassinato da travesti Quelly da Silva, que teve o coração arrancado, em Campinas, e que teve a morte dada como “aleatória”, bem como o suicídio de um casal de pessoas não-binárias, Ares e Soren, em São Paulo são mais números para essa estatística, que vêm crescendo de maneira galopante. Deixam buracos e dores. Buracos e dores que devem transformados em força de luta.

A cidadania negada a pessoas trans e travestis colabora para essas estatísticas. Os direitos à identidade e a direitos básicos como saúde, educação, emprego e segurança seguem negligenciados e negados por um Estado transfóbico e cissexista, em que vidas de pessoas trans e travestis valem menos – ou até mesmo não valem coisa alguma… Outro exemplo disso é o fato de que as transgeneridades ainda são consideradas doença mental/transtorno/disforia/aberração pelas comunidades biomédica e psi. É senso comum. O suicídio, as dores, o sofrimento ainda são provenientes da escassez de direitos básicos e da negação ao direito à vida por parte de uma sociedade preconceituosa.

No Dia da Visibilidade Trans (29 de janeiro) não há o que comemorar. É dia de luta. É dia de relembrar a trajetória do movimento trans e travesti. É dia de exigir pela própria vida e existência. Que visibilidade é essa que permite que as populações de pessoas trans e travestis ainda sejam marginalizadas? Que visibilidade é essa que é sempre dada pejorativamente, reforçando o sistema estrutural e institucional transfóbico da nossa sociedade? Até quando mais mortes, mais sangue derramado? Até onde essa perversidade?

E neste momento em que o Brasil encontra-se tomado por ódio, violência, terrorismo e desesperança, o que resta é lutar, resistir, importar-se, unir-se e fortalecer essa luta que não é apenas da população trans, mas de todas e de todos. O que começa a sentir de dificuldade agora e os horrores que estamos vivenciando, populações de pessoas trans, travestis, negras, indígenas, quilombolas, LGBIs e pobres já sentem e vivenciam muito antes.

Quelly presente.

Ares presente.

Soren presente.

 

Vincent Goulart é psicólogo e ativista trans. É coordenador-geral do Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade.

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