Armários para o Futuro

Diego Leismann*

O Machismo tá ai. Ele tá nas ruas, nos jardins, nas favelas, nos transportes públicos. Esse machismo vive dentro de nós. É um grupo de ideias em que somos ensinados a acreditar como sendo naturais, definindo valores para nossos atos e sobre nossos corpos para favorecer um determinado grupo. Vamos chamar esse grupo de A Família Conservadora e cada ideia machista de um Armário, e, assim, refletir sobre os principais armários criados pelas famílias conservadoras.

O primeiro Armário construído serve para estruturar todos os outros Armários. Vamos chamar de Futuro. Futuro é o Armário que define as nossas garantias. Para que conquistemos nosso futuro precisamos definir quem somos e ocupar um papel no lugar onde vivemos – mas dentro dessa ideia nosso corpo define nosso futuro: quem nasce homem, deve casar com uma mulher, ter filhos e trabalhar até se aposentar. Quem nasce mulher, deve se preparar para cuidar da família, filhos, jardins, cozinhar, passar, entre outros trabalhos domésticos.

Mas Homem e Mulher são definições muito superficiais para definir as pessoas. Existem diversas outras características que nos definem, como nossa Identidade de Gênero, Sexualidade e Expressão.

Quem acredita no Futuro tenta encaixar as pessoas em definições fixas. Só que nem mesmo Homens Heterossexuais estão totalmente satisfeitos com o papel que devem ocupar. Afinal, as diversidades (cultural, social, sexual) tornam a execução dessa ideia incompatível com a realidade atual. Mulheres estão trabalhando e homens estão cuidado dos filhos – e isso é um grande mudança, mas não adianta pintar o armário e mantê-lo só para guardar mágoas, ódio e outras milhares de coisas que compramos e nunca vamos usar.

Esse armário tenta definir o que é a natureza humana, mas ela não tem nada de natural. Foi construída para otimizar a mão-de-obra de todos os homens, dando a eles o direito de ter uma escrava chamada esposa – que vai cuidar da casa para que ele mantenha o foco apenas em ganhar dinheiro. Depois, criaram o amor romântico, o casamento, a família, para convencer todas as mulheres de que isso era natural. Esse armário é um dos mais difíceis de se destruir. Ele é construído desde os nossos primeiros anos de vida, quando escolhemos, inclusive, cores para definir quem são nossos filhos. Definimos se vão ser Homens ou Mulheres, colocamos nomes Masculinos ou Femininos. Compramos bonecas e casinhas para mulheres; carrinhos e ferramentas de plástico para homens. Colocamos as meninas no balé e os meninos no futebol.

Muitas famílias não educam seus filhos para tomarem decisões por vontade própria, mas empurram seus filhos para opções baseadas nessa ideia de Futuro, criando uma expectativa heteronormativa e punindo aqueles que não se expressam ou não se comportam da maneira imposta. Esse Armário é reforçado pelos pais e familiares a cada repressão, a cada vez que o jovem escuta que existe um padrão e que para ser feliz é preciso segui-lo. Alimentam um medo. Medo de ser o Outro.

561366_457481144270960_1389988813_n*Diego Leismann é web designer e voluntário no SOMOS desde 2009. Trabalhou como monitor no Projeto Qual é a Sua? e integrou a equipe de Comunicação da entidade por 2 anos. Atua como militante do Movimento LGBT e de Direitos Humanos e coordena o blog Design Livre, com foco em Design e Software Livre.