Segunda rodada de debates do Seminário UnB Fora do Armário: Ações Afirmativas e Diversidade Sexual.

Por Luiz Felipe Zago
De Brasília

As discussões que permearam a segunda rodada de debates do Seminário UnB Fora do Armário foram norteadas pelas múltiplas articulações entre experiências de sexualidade, raça/etnia e geração. Os/As painelistas que formaram a mesa deram relatos de suas atuações junto a ONG do movimento LGBT e também de suas produções acadêmicas no campo dos estudos de gênero e sexualidade. As provocações lançadas pelos/as debatedores investiram politicamente as relações entre movimento social e pesquisa acadêmica, sugerindo que ambos precisam coexistir para se potencializarem mutuamente.

Luciano Freitas, representante da ONG Leões do Norte, trouxe o relato de uma transexual que não tem direito assegurado de ser chamada pela seu nome social dentro do curso de Pedagogia de uma Universidade pernambucana. “Não podemos pensar os Direitos Humanos numa perspectiva unicamente transversal. Os Direitos Humanos podem se constituir num campo autônomo de conhecimento”, disse ele, ao se referir ao direito de reconhecimento do nome social de travestis e transgêneros dentro de espaços de educação formal. Luciano salientou que as atitudes homofóbicas são responsáveis pela evasão de estudantes da escola e da graduação, daí que é preciso fazer com que a diversidade sexual seja incluída nos currículos de todos os cursos e níveis de formação. Luciano também enfatizou que as pesquisas feitas dentro Universidades sobre gênero e sexualidade precisam extrapolar o campo acadêmico e servir de ferramenta e estratégia para intervenção social e política. “É preciso desacomodar o currículo e fazer com que se fortaleça as discussões sobre Direitos Humanos como disciplina pertinente”.

Jeovan, representante do Fórum Nacional de Juventude Negra e responsável pelo núcleo LGBT, afirmou que “o combate contra a homofobia precisa ir para além das nossas siglas para que não se enfraqueça a luta política”. A fala de Jeovan foi marcada pelo recorte étnico, sobre como as diferenças de raça/etnia complexificam a experiência da sexualidade. Ele comentou sobre o trabalho que ele e seus colegas fazem junto às travestis negras de Salvador, na Bahia, e do quanto as suas condições adversas de existência enquanto cidadãs são também modos potentes de produção de vida que contestam as normas sociais. Jeovan chamou a atenção para os/as militantes evitarem o academicismo que pode torná-los/as insensíveis às possibilidades de ressignificação e resistência, de modo que a produção de conhecimento dentro das Universidades no campo do gênero e da sexualidade precisa dialogar com tudo aquilo e todos aqueles que estão fora do espaço acadêmico. “A luta do movimento LGBT é de responsabilidade dos/as LGBT e também dos/as heterossexuais; a luta do movimento negro é dos/as negros/as e também dos/as brancos, dos/as índios/as, de todas as etnias”, concluiu ele.

Nessa segunda rodada, os/as painelistas e os/as participantes aprofundaram a discussão sobre os atravessamentos de raça/etnia e sexualidade, e quais as consequências desses atravessamentos na invisibilização de certos sujeitos – como as travestis negras – e do papel do movimento LGBT em procurar contemplar em suas reivindicações também os Direitos Humanos dessas pessoas “impensadas”. Também foram debatidas as implicações sobre condições de raça/etnia, sexualidade como produtoras de situações de assédio moral e de experiências de violência. A grande temática que envolveu os diálogos foi de como as ações políticas, tanto do movimento social quanto dos centros acadêmicos, não podem ter uma vontade de mudança imediatista porque é preciso intervir em um contexto complexo de fatos que produzem a violência, a discriminação, o preconceito por raça/etnia, por orientação sexual e gênero.

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