Nota sobre caso de homofobia na UFCSPA

O grupo SOMOS – Comunicação Saúde e Sexualidade construiu uma trajetória de dez anos de luta pela defesa e promoção dos Direitos Humanos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. Desde que foi criado, em 2001, todas as pessoas que se envolveram nas atividades desenvolvidas pela instituição estiveram e ainda estão preocupados na afirmação da dignidade da vida humana e na denúncia de todas as formas de violência, sobretudo aquelas motivadas pelo ódio às sexualidades não-heterossexuais.

 Em novembro de 2010, o SOMOS se preocupou em denunciar o caso de um email anônimo divulgado entre um grupo de alunos do curso de medicina da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. O email foi escrito e postado por um dos alunos da UFCSPA por ocasião da eleição da chapa para o Diretório Acadêmico composta por jovens gays. No texto, o aluno sugeriu aos colegas futuros médicos que se recusassem a tratar seus eventuais pacientes gays ou lésbicas, ou que os tratassem erroneamente.

Cientes do fato, os integrantes do SOMOS provocaram mobilizações em várias instâncias, pautando o caso na mídia, solicitando as investigações cabíveis ao Centro Operacional de Direitos Humanos do Ministério Público Estadual, à Polícia Federal e à própria Universidade, além de promover uma manifestação em frente à UFCSPA junto com militantes de outros grupos que trabalham na defesa da livre orientação sexual. No dia 02 de março de 2011, o Conselho Universitário da UFCSPA decidiu afastar da instituição o aluno autor do email. As decisões do Conselho foram guiadas pelo relatório final entregue à Universidade pela Polícia Federal, de modo que se baseiam no resultado do processo administrativo instaurado para cuidar do caso.

Diante desta decisão, o grupo SOMOS reitera sua posição como organização que trabalha na construção de uma sociedade democrática, na promoção dos Direitos Humanos e na defesa do direito à livre orientação sexual. Esses foram os valores norteadores das ações nas quais os integrantes do SOMOS nesse caso, sempre preocupados em impedir atitudes de incitação ao ódio, à discriminação e à violência, como era o conteúdo do email veiculado. O SOMOS parabeniza a atuação da Polícia Federal, do Conselho Universitário da UFCSPA, do Centro Operacional de Direitos Humanos do Ministério Público Estadual; parabeniza o empenho dos veículos de comunicação que noticiaram o caso e as demais organizações não governamentais presentes na manifestação em frente à UFCSPA.

Contudo, reiteramos a proposta de que seja inserido dentro da Universidade um debate profundo sobre Ética e Direitos Humanos entre o corpo docente e o corpo discente, seja através de palestras, capacitações e formações contínuas, seja através da inclusão no currículo do curso de uma disciplina específica sobre essas temáticas. É preciso transformar essa situação de incitação ao ódio em uma possibilidade de reflexão, de modo a promover a mudança da realidade da norma heterossexual que produz discriminações e violências contra pessoas não heterossexuais.
Luiz Felipe Zago

Coordenador-geral do SOMOS – Comunicação Saúde e Sexualidade

7 thoughts on “Nota sobre caso de homofobia na UFCSPA

  1. Parabéns pelo trabalho de vocês1
    Achei muito "interessante" a Zero Hora ter publicado o nome e a foto dos dois homossexuais integrantes da chapa e não aparecer (pelo menos no site) o nome do autor da mensagem.
    Por que será?

  2. Maria Lúcia

    Esse jovem já teve a sua carreira acadêmica destruída, foi expulso da Universidade, perdeu seu sustento como estagiário (sim, ele estudava de dia e trabalhava á noite para custear seus gastos), foi rechaçado pelos seus colegas e por todos os que souberam da autoria daquele e-mail. Acredito que toda a punição que ele merecia já foi dada. Expor ainda mais a imagem dele em nada acrescentaria nem a defesa dos direitos homossexuais nem ao combate ao preconceito, apenas incitaria o ódio, algo que em nada combina com a luta em defesa da ética e dos direitos humanos.

  3. Ok…

    Concordo com a punição,, pois o cara realmente mostrou ser incapaz de separar sua opinião (para mim, um direito inalienável de todo ser humano) do ideal da medicina, que é, antes de mais nada, lutar pela preservação da vida humana e, quando isso não for possível, evitar o sofrimento e tentar, ao máximo, proporcionar qualidade de vida, ainda que pelo curto período que ela possa resistir.

    Porém, não concordo com essa de que "deve haver até disciplinas nos cursos para que fatos como esse não voltem a ocorrer…". Eu não sou exatamente um homofóbico, mas ta,bém não sou favorável ao homossexualismo. Só que minha opinião é somente minha opinião, mais nada. Apenas não acho que, por existirem pessoas mal intencionadas como esse estudante, eu deva ser obrigado a receber lições de moral e de conduta perante homossexuais.

    Será que, depois do período de cegueira e domínio do heterossexualismo vamos entrar na era do homossexualismo? E será que esse período já vai começar com os mesmos erros do anterior, com dogmas e leis proibitivas de opinião e severamente punitivas a quem não concordar com o ideal homossexual?

    Se for assim, acredito que nada muda senão o tirano…

  4. Anônimo,
    Existe uma diferença entre o direito inalienável do ser humano de ter opinião e a "confusão" que se faz em respeito à sexualidade. A homossexualidade não é uma opção ou escolha do indivíduo, que em uma certa hora na vida "decide" ser gay. É como a cor da sua pele, ou dos seus olhos. Você decide ser negro? Não. É admissível que alguém seja contra a negritude? Não!

    É por causa deste tipo de pensamento que nós vemos tantas pessoas escondendo a sua sexualidade e pensando que vivem uma vida errada ou pecaminosa. Não é necessário detalhar o número de suicídios que ocorrem por esse motivo. E esse não é um problema só dos gays, mas da sociedade como um todo. Afinal, sua filha pode se descobrir lésbica e passar por esse problema. E você não gostaria de ver sua filha se matando simplesmente por que ninguém pensa no assunto, não é mesmo?

    Todo o profissional,ainda mais um com tanta responsabilidade como o médico, tem a obrigação de entender como funcionam as relações na sociedade. É o direito à vida destas pessoas que está em jogo.

    Abraços,
    Gabriel Galli

  5. Prezado anônimo, você diz: "Expor ainda mais a imagem dele em nada acrescentaria … apenas incitaria o ódio, algo que em nada combina com a luta em defesa da ética e dos direitos humanos." Será que você tem o mesmo pensamento a respeito de todas as pessoas que têm comportamento violento? A ZH todos os dias divulga o nome e a foto de algum transgressor. Porque uns têm o nome publicado e outros não? Este é o meu ponto!

  6. Desculpe, Gabriel, mas eu penso diferente sim.

    Você acha que o homossexualismo não se escolhe,
    mas eu discordo.

    Se desde pequeno você entende, por exemplo, que
    a sua espécie se multiplica e que você só pode
    ser concebido a partir da relação de um homem e
    uma mulher, não é incomum que muitos jovens, ao
    se perceberem com características ou mesmo com
    desejos e vontades que o levem a pensar que ele
    é homossexual, então ele tem, neste momento, a
    capacidade de se questionar em relação a isso.

    Claro que não sou adepto do "certo ou errado" na
    hora em que um indivíduo se sente como homossexual
    de fato, mas se cabe a pergunta, caberia uma busca
    do porquê, que não existe hoje, pois todos são
    favoráveis (inclusive eu) a direitos iguais para
    os homossexuais, tanto juridicamente quanto no
    que concerne à expressão.

    O problema é que está parecendo que o "certo" é
    ser homossexual, que homossexuais podem expressar
    o que são e o que pensam, mas que quem discorda
    ou pensa o contrário, não tem direito a uma opinião
    ou mesmo á críticas.

    Aí as coisas me parecem estranhas…

    Abraço.

  7. Anônimo,
    Respeito o seu raciocínio e acho ótimo que este espaço sirva para a construção de conhecimento. É isso mesmo que precisamos: discutir a sexualidade. Por isso, agradeço os teus comentários.

    Entretanto, esta questão não é baseada em opinião, mas em fatos. Existem algumas teorias que tratam a homossexualidade como um recurso da natureza para controlar a natalidade, o que explicaria também a presença da homossexualidade em outras espécies. Mas esta é uma teoria só, entre tantas que explicariam. Podemos até nos contestar sobre a necessidade, de fato, de explicar a homossexualidade. Vivemos em uma sociedade em que as pessoas devem ser respeitadas de forma plena. A educação em diversidade sexual tem este objetivo.

    Criticar, discutir e procurar entender é um direito seu. A agressão ou até mesmo a omissão em relação a essa população deve ser pensada como algo mais grave.

    Abração,
    Gabriel Galli

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