BR Trans: Entrevista com Silvero Pereira

Qual o papel da travesti na sociedade? O que a sociedade pensa sobre a travesti e como podemos mudar este pensamento através da arte?

Quando atores, transformistas, artistas plásticos, fotógrafos, músicos, publicitários e designers se reuniram para tentar entender estas questões, em 2005, o resultado foi o Coletivo Artístico As Travestidas, resultante da extensa pesquisa de 10 anos feita pelo ator e diretor cearense Silvero Pereira. A ideia de trabalhar com travestis surgiu na comunidade em que morava, onde enxergava diariamente o preconceito sofrido. “À noite, elas se relacionavam com homens. Os mesmos que, durante o dia, agiam com preconceito e discriminação com elas”.

Mas, o que fazer para que outras pessoas começassem a se questionar sobre o tema?  O primeiro trabalho com o universo das travestis e transformistas começou com a adaptação do texto A Dama da Noite, do escritor gaúcho Caio Fernando Abreu. Surgiu, então, a peça Flor de Dama, fruto também de um trabalho extenso de entrevistas e registro de histórias das travestis. “Foram dois anos de pesquisa, de 2000 a 2002. A peça já teve mais de 500 apresentações e, neste ano, estará no Palco Giratório, no Circuito Nacional”, conta.

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Silvero Pereira é ator e dramaturgo. Sua peça mais recente é o monólogo BR Trans, em cartaz em Porto Alegre. Foto: Luísa Hervé

Para criar a peça, Silvero não pensou em um ponto de vista militante, mas o próprio público que pertencia ao movimento LGBT acabou conquistando o ator: “Falaram que meu trabalho era importante. Fui me inserindo e me encantando com o movimento e acabei me tornando parte disso. Foi quando o teatro se tornou mecanismo de transformação social“. Silvero viu, então, que é possível usar o teatro para questionar e mudar a cabeça da sociedade, para que as pessoas saiam com “mais conceitos e conhecimentos e menos julgamentos”.

Após outras experiências, o projeto da peça BR Trans iniciou em janeiro de 2013, com texto e dramaturgia de Silvero, montados a partir de suas experiências: foram três meses de investigação conhecendo travestis em outros meios, como a academia e ambientes profissionais, além da rua. O grupo Somos – Comunicação, Saúde e Sexualidade, atuou como Pontão de Cultura para aprovar o projeto frente ao Ministério da Cultura. Em uma conversa com a gente, Silvero contou um pouco mais sobre o seu trabalho, a percepção do público a respeito do tema, resumindo a principal mensagem do monólogo. Confira:

Durante o processo de pesquisa, tu notaste alguma diferença entre Porto Alegre e Fortaleza?

Sim, é complicado dizer para as pessoas que estão aqui [Porto Alegre] isso que eu sempre digo, mas o tratamento para as travestis aqui é menos pior do que no Ceará. Aqui você consegue ver mais travestis na faculdade, mais travestis trabalhando em outras áreas que não só a prostituição; aqui tem essa ala para as travestis no presídio, uma coisa que no Ceará ainda não se faz nem movimento para discutir. Eu tenho uma outra perfomance em que, às vezes, saio montado na rua para comprar um pão na padaria, para ir em uma peça de teatro, para ir na Casa de Cultura Mário Quintana ver uma exposição. Tudo para ter uma vivência, para as pessoas verem as travestis fora do que acham que elas vivem, fora do “circuitão” Farrapos e tal. Você pode andar na rua e ver uma travesti agora comprando uma coisa; sair sem precisar fazer programa, marginalizada. Tenho percebido que aqui isso é mais aceito. Eu faço isso em Fortaleza mas sempre sofro muita agressão verbal; as pessoas ficam muito incomodadas.

E quanto ao público que assiste às peças?

Lá [Fortaleza], já mudou bastante. Como a gente está há dez anos lá fazendo esse trabalho, hoje temos um público muito grande, sempre lotamos casa e tal. Conheço Porto Alegre há um ano, mas a receptividade do BR Trans foi muito positiva, a gente sempre teve um público considerável e as pessoas abraçaram muito o espetáculo. Afinal, é difícil para alguém de fora chegar em Porto Alegre, ser reconhecido e ter espaço.

Nestes 10 anos em Fortaleza, como tu enxergas o papel do teatro para desmistificar e tentar acabar com o estigma sobre as travestis?

Olha, deu para modificar muito a cabeça de muita gente. Por exemplo, o nosso público no início era um público muito heterossexual, inclusive, muito cult e elitizado. Mas, com o passar do tempo, a gente começou a ter uma massa muito considerável e hoje vimos que fazemos um teatro bem popular. A gente sempre enche casa e é uma diversidade muito grande.  A gente ouve comentários de pessoas que dizem que hoje conseguem entender a diferença de condição para história de vida. Passar na rua e ver uma travesti em uma esquina e enxergar qual foi a história até aquela condição e não julgar apenas por estar na esquina, sabe?

Então várias pessoas comentam isso: pais que vão assistir o espetáculo e dizem “agora eu sei o que o meu filho passa, vou chegar em casa, abraçar o meu filho e entender quais são todos os sofrimentos que acontecem”; pessoas de igreja que vão assistir à peça e dizem “nossa, a gente não tinha noção do quanto isso é pesado e complicado”. Até mesmo essa ideia de marginal: tem muita gente que assiste à peça e entende que a travesti não é margem, é meio. Porque você tem uma família que põe para fora, uma escola que põe para fora, uma religião que põe para fora. São as três bases de uma sociedade. Então, elas não são margem, não estão fora, foram vocês três que criaram! Na verdade, a travesti é um filho renegado. Agora, vocês vão assumir os filhos que vocês criaram: foram vocês que botaram para fora, vocês deram essa condição, então agora assumam! Essa discussão sempre vem com o público.

O que tu tentas passar para o público com a peça BR Trans?

Eu tento ser o mais real possível. Todas as peças são fatos reais. No BR, tudo é real, embora seja um ator contando e vivendo histórias. Mas tudo que está sendo dito lá é verdadeiro: ou que eu vivi, que eu li, que eu presenciei, o que eu vi em um vídeo. O que a gente espera é que as pessoas, ao verem o nível de crueldade social, consigam entender o outro lado e serem mais sensíveis e menos agressivas quando se trata dessas condições.

Acho que o mais bacana é que o trabalho foi feito aqui e a gente considera uma homenagem para a cidade, embora seja eu, Silvero, que moro em Fortaleza, cearense, o trabalho foi todo feito aqui. As histórias são daqui e chegamos em um resultado muito bonito, porque é um projeto de pesquisa no qual ficamos muito emocionados de ver como a cidade está presente e o quanto consideramos uma homenagem pelas histórias que existem aqui e pela mudança social que podemos causar a partir de histórias existentes, sob um ponto de vista mais poético.

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Ficou curioso? A peça estará em cartaz nos dias 25, 26 e 27 de março em Porto Alegre! Começa às 20h, no Teatro de Arena (na escadaria da Avenida Borges de Medeiros). Ingressos: R$ 10,00 meia entrada e R$ 20,00 inteira. Atuação de Silvero Pereira e direção de Jezebel De Carli. Confira o evento.

Por Jéssica Kilpp