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Mapa paraibano cultural LGBT – Parte II

A passagem pelo estado da Paraíba foi extendida à cidade de Campina Grande, tem se tornado um pólo de cinema voltado ao tema da diversidade sexual , com cineastas de destaque como Bertran Lira (“HOMENS”), André da Costa Pinto e Carlos Mosca.

Conversando com o cineasta André da Costa Pinto

Com um trabalho nacionalmente reconhecido,o premiado cineasta André da Costa Pinto, tem se tornado uma referência no tema. Compreende o “Cinema Gay” como um estilo/gênero: “A sexualidade é um gênero que cabe em todos os outros”. (…) As pessoas têm medo da rotulação, mas tem que ter coragem. O Diretor faz filmes pra mostrar.” Uma de suas produções, Amanda e Monick (2008), é um exemplo disto. O filme ocupou diversos espaços, recebendo mais prêmios em festivais gerais de cinema, do que especificamente em mostras de temática de diversidade sexual. Inspirado em uma experiência da familiar, Amanda e Monick mostra a vida de duas travestis no interior da Paraíba, uma professora e uma profissional do sexo. A obra de arte expande suas funções quando adquire um status também pedagógico, sendo adotada por escolas e empresas, através de projetos de sensibilização. Cria uma ponte sensível com outras pessoas que vêem, através de seu olhar, uma forma positiva de falar sobre o tema.

Seu próximo projeto, o filme Camile Cabral, contará a história real de uma travesti que vai para a França, saída do interior de Paraíba. Quanto a diversidade de temas polêmicos, lembra: “Se há liberdade, há igualdade”.

Carlos Mosca

Produções como as de André, feitas de forma independente propondo temas ousados têm seu leque de atuação ampliado, e ao mesmo tempo, apresenta suas dificuldades. Uma realidade que busca superação através da atuação da Ong Moinho de Cinema da Paraíba, focada em alavancar produções dentro da temática da diversidade e na restauração de um circuito de cinema independente. Um de seus sócios-fundadores e também realizador audiovisual, Carlos Mosca, conta que trata-se de uma espécie de coopertiva que dispõe de figurinos, objetos, e profissionais, e que, em 3 anos, já colaborou na produção de 15 filmes. Atualmente, sua luta é também por ampliação de espaço e estrutura para produção e exibição.

“Sendo gay, tenho a necessidade de falar da realidade que vivo”. Nesta vertente, realizou o filme Maria de Kalú, a história da dona do primeiro bar gay de Campina Grande, freqüentado por um público marginal. Carlos conta que “o interesse, no início, era contar a história do bar e acabou tornando-se um retrato de vida de uma personagem da vida real”. Uma mulher comum que, por sua realidade, transforma-se numa referência. Uma forma singular de “dizer que existe”.

Wagner Pina

A cidade é também espaço de atuação do fotógrafo de Moda e Publicidade, Wagner Pina. Para o fotógrafo, “a máquina é só um recurso, um equipamento”.O que inspira é o desejo de colocar seu olhar sobre aquilo que é fotografado.

Em seu trabalho intitulado “Fetiche”, realizou uma série de fotografias tendo como tema 10 desejos e fetiches sexuais. Exposta em um bar, a mostra trouxe imagens da ordem do privado para o público, provocando deslocamentos de lugares e sensações, tendo grande aceitação dos visitantes.

Na despedida de Campina Grande, conversamos com Rodrigo Firmino de Lima, coordenador do Ponto de Cultura e Arte Regional na Praça. O Ponto é aberto ao público geral, mas foi criado prioritariamente focado em públicos de maior vulnerabilidade social, como os LGBTs, negros, indígenas, mulheres, jovens e adolescentes, explica coordenador. A luta contra qualquer forma de preconceito é vislumbrada já pela forma de composição de perfis atendidos. Os processos de inclusão se dão através de oficinas de expressão corporal, maquiagem artística, sonorização e interpretação de texto, que trazem as pessoas às práticas artísticas. Como resultado, por exemplo, teve a criação do espetáculo As virgens à deriva, apresentado em espaços abertos na cidade, de forma pública. Uma forma de se apropriar da cidade através das artes.

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Mapa paraibano cultural LGBT – Parte I

A passagem do Mapeamento Cultural LGBT pela Paraíba cruzou fronteiras. Não somente aquelas que estamos habituados a encontrar no tracejo deste mapa sensível, que conecta arte e vida. Mas também, paisagens geográficas: da diversidade da capital João Pessoa ao pólo de produção cinematográfica “gay”, Campina Grande.

É possível pensar em cruzamentos de fronteiras também ao conhecer o trabalho da dupla Diet & Light, as “drag-gêmeas” interpretadas pelos irmãos Romildo Rodrigues (Gabriela Light) e Romilson Rodrigues (Gabriela Diet). Habitualmente vestidas como irmãs gêmeas à moda tradicional (com tudo igual), levaram a Arte Transformista à TV aberta, onde têm um programa de notícias e humor. Também levaram a experiência de mais de 10 anos ao Teatro, no âmbito acadêmico, onde após superar preconceitos, tiveram reconhecimento em seu trabalho. “O ator tem que ser ousado. A coragem determina a exploração dos palcos”, completa Romildo que vê sua arte hoje, acessada por diversos públicos, em diversos lugares.

A sintonia entre os irmãos foi importante até na hora de se revelarem “gays”, um ao outro. Só depois disso que as drag-gêmeas surgiram em suas vidas.

Trio Los Y Pla

A cantora Malu Moreno, a pianista e maestra Isa Y Pla e o percussionista Heberton, formam o Trio Los Y Pla, um projeto musical que mescla uma diversidade de ritmos, como MPB, bossa nova, axé, afro e bolero. A afinidade do grupo iniciou no Teatro, quando a também diretora Isa percebeu o potencial na voz de Malu e a convidou para iniciar um projeto em piano e voz. Com a entrada de Heberton, agregaram elementos de percussão, dando nova cara ao projeto, que se apresenta em espaços LGBT, festas e eventos sociais. Para o futuro, pretendem desenvolver um espetáculo homenageando os “Cantores da Era de Ouro do Rádio”.

Um dos grandes diferenciais do Trio Los Y Pla é a voz potente de Malu, que é travesti e, diferente de outros e outras artistas que dublam nos shows de transformismo, “canta com a própria voz”, que está “cada vez melhor”, como observa a maestra.

A inusitada Banda Osorno

Dois anos, 7 integrantes, diversos países, visual colorido, rock misturado com músicas regionais.

Neste ritmo intenso, entrevistamos a Banda Osorno, em meio a um ensaio performático. A banda formada por uma dupla de vocalistas e cinco jovens meninos instrumentistas, capricha em figurinos ousados e divertidos.

Se apresentam em todos os palcos, da Parada às casas de espetáculo, tendo já viajado por diversos lugares do Brasil e do mundo. Um espírito irreverente gritante que é referência para o público jovem e contra qualquer forma de preconceitos.

Ary Régis

As histórias de Baia são conhecidas para além da cidade onde vive, no interior da Paraíba. Histórias trágicas, alegres, tristes e às vezes, impossíveis. Sonhos e relatos da vida de um gay paraibano, mas que poderiam fazer parte da vida de qualquer um. Narrativas de uma vida “vivida” e anônima, que têm muito o que dizer. Contos de uma vida privada que, através da internet, passam a ser íntimas da vida de muitas pessoas. E a Baia já vai fazendo parte da nossa vida. Narrativas simples da vida de um homem gay, maduro, como a primeira vez que foi a uma boate gay “montado”, ou quando viu a morte de perto ao envolver-se numa aventura sexual marginal. Histórias que encantam e se conectam a vida de tantos outros homens gays que vivem em seu cotidiano, situações adversas e carregadas de preconceito.

Baia é a personagem da vida real que ganhou notoriedade através da série de vídeos exibidos pelo Youtube, produzida por Ary Régis. Videomacker e documentarista, Ary atualiza sua formação em História ao realizar este projeto que adquire um cunho antropológico, maior do que o imaginado. No início, a intenção era documentar o começo da vida gay de João Pessoa. E, no entanto, a força encontrada em Baia tomou um grande espaço dentro do projeto Laranjas Bahia, tomando proporções inesperadas, atingindo um grande número de seguidores e fãs nas redes de relacionamento, como blogs, Facebook e Twitter. Causos contados através de novas linguagens.

Os vídeos são editados de forma simples, onde se prima por uma boa montagem. A proposta é não editar muito para se aproximar o máximo da espontaneidade. Os programas são baseados em conversas naturais, com poucas intervenções. Conforme Ary “tem que ter tesão na proposta”.

Os causos de Baia são relatos de uma vida atravessada por dificuldades e superações. Tragédias do cotidiano que dialogam com a vida de muitas pessoas, onde o importante é virar a página e seguir em frente. Versam sobre um ato de persistência num mundo que insiste em negar direitos e desrespeitar as diferenças.

Banda Brasis com o produtor local Alcemir Freire (centro)

“A diversidade começa aqui”, para a banda universitária Brasis, caracterizada pela pluralidade de seus seis integrantes: artistas/estudantes universitários de diversas áreas. Conhecida pelas performances que evocam “brasilidade” pouco valorizada hoje em dia, a banda tem como marca a irreverência dos elementos tropicalistas, e passeia pela MPB sem preconceitos. Revelam que a liberdade é essencial para seu processo criativo. Não se prende a rótulos e faz sua música, revisitando o que há de melhor na música brasileira, reprocessada de forma performática, numa contaminação de brasilidade e celebração.

Luciano Bezerra Vieira

O histórico da Parada do Orgulho LGBT de João Pessoa foi apresentado pelo historiador e especialista em Direitos Humanos Luciano Bezerra Vieira, atual presidente do Grupo MEL (Movimento do Espírito Lilás), idealizador do evento que veio a incorporar em sua organização posteriormente, outras importantes instituições da cidade: a Associação das Travestis da Paraíba (ASTRAPA) e o Grupo de Mulheres Maria Quitéria. O evento que acontece sempre em Setembro, na praia de João Pessoa, comemora este ano sua décima edição.

Para o Luciano, a proposta da organização de uma Parada é ir além: “a idéia é conceber a Parada não somente como um evento da militância LGBT, mas da sociedade como um todo. Assumida por outros movimentos”. Acredita que, apesar do evento ter crescido bastante, é notório que as últimas edições apresentaram um público reduzido. Em sua análise, isso se dá por conta de uma característica quase que exclusivamente festiva, atualmente. Luciano, que também é secretário no Fórum LGBT da Paraíba, enfatiza a importância da Parada retomar o caráter mais político e reivindicatório: “A Parada tem que repensar a questão, sem perder a característica festiva”.

Como constatado em outras capitais, o excesso de burocracia e a desarticulação de gestores, deflagram indícios de homofobia institucional, também na capital paraibana. “O Estado não está preparado, nosso espaço é mínimo e nossas demandas são tratadas com menos importância.(…) É um evento tratado com diferença, frente a outros eventos, produzindo insegurança para o segmento”.

O MEL – Movimento do Espírito Lilás, criado em 1992 possui significativa trajetória no segmento cultural LGBT, no resgate e valorização da Arte Transformista com o concurso Drag MEL, que acontece no Teatro Lima Penante. O evento que envolve diferentes linguagens, visa incentivar a profissionalização desta arte, propondo oficinas de dança, teatro, artes plásticas e maquiagem.

Fernanda Benvenutty

Numa conversa empolgante, Fernanda Benvenuttynos contou uma história pouco conhecida dentro de sua trajetória de vida, marcada pela expressiva representatividade no movimento brasileiro de travestis. Contou sobre seu dias de artista, quando muito jovem se descobriu apaixonada e se lançou numa aventura junto ao mundo do Circo.Na verdade, fugiu de casa e seguiu seu primeiro sonho. Nos palcos atuava com trapezista e atriz, onde aprendeu a importante tarefa de representar as personagens da vida, passando a escrever peças de teatro, tendo que subverter, muitas vezes, a repressão dos anos de censura. Sempre abordando temas sobre diversidade, preconceito e discriminação, unindo a linguagem teatral convencional ao Transformismo, acreditando que “o Teatro é uma ferramenta transformadora de opiniões e da própria sociedade”.

Fernanda também destacou sua atuação no Carnaval pessoense e a importância da comunidade LGBT na construção de uma das mais significativas manifestações artísticas populares brasileiras. Sobretudo, Fernanda foi a primeira travesti presidente de uma agremiação carnavalesca na cidade e sua participação trouxe mudanças significativas ao jeito de fazer carnaval em João Pessoa, elevando o padrão do evento para outras perspectivas e formas de organização.

Dos palcos circenses aos palcos do Movimento Social: uma experiência de vida e crença na força da arte que reflete hoje em sua trajetória como ativista LGBT.

Henrique Magalhães apresenta a série Das tiras coração

O Centro de Documentação Adelmo Turra, na sede do SOMOS – Comunicação, Saúde e Sexualidade, em Porto Alegre, recebeu a doação de alguns números da coleção de Histórias em Quadrinhos Das tiras coração.

Numa conversa breve, pois o artista estava de passagem, ganhamos de Henrique Magalhães, exemplares da coleção com estórias trazem personagens como gays, lésbicas, “ursos” e professoras: personalidades bem construídas, e que freqüentemente são descriminados pela sociedade, seja pela sua orientação sexual, opção religiosa ou escolha profissional.

Bem humoradas, as HQs, em forma de tirinhas abordam temas polêmicos com irreverência de descontração.

 

Na sede do Grupo de Mulheres Maria Quitéria, a militante e artista plástica  Dulce Abstratus, nos conta a história de Maria Quitéria. A baiana que ainda bem jovem, cortou os cabelos e foi pra guerra. Recebeu de D.Pedro 1º, a condecoração de “Cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro”, em reconhecimento por sua bravura. E que anos após voltar da guerra, morreu quase cega e no anonimato. Não se sabe se era gay, mas tornou-se uma referência feminina, por ser a primeira mulher, no Brasil, a sentar praça num acampamento militar.

Lucia Abstratus apresentando sua produção

Em sua produção plástica, Lúcia aborda elementos ligados a simbologia LGBT, como por exemplo, o arco-íris. Como linguagem estética, representa este universo simbólico em padrões concreto e abstratos. Em suas pinturas, utiliza como materiais: tinta acrílica, verniz acrílico e pigmentos com verniz. Desenvolve também trabalhos em serigrafia.

Lúcia não separa sua arte da militância, e entende seu trabalho como uma forma de fazer política. Sua arte é uma resposta sensível aos desafios que a população LGBT enfrenta cotidianamente, na forma de preconceitos e violências. Comparando o Movimento LGBT ao Movimento Negro, a artista comenta a importância da valorização dos símbolos e identidade de um grupo para seu reconhecimento, “é importante se organizar para visibilizar suas causas e lutas”, concluindo que ainda temos uma longa estrada a percorrer.

Importante destacar também o trabalho do Maria Quitéria na realização do Festival Nacional de Música: Mulheres Cantam Mulheres. O festival, premiado pelo Ministério da Cultura tem o objetivo de dar visibilidade a mulheres compositoras e intérpretes, incentivando a criação e abrindo as portas do mercado da música.

Também conhecemos o trabalho do artista plástico Yon Pontes, que abriu as portas de seu atelier para mostrar sua produção, que versa sobre uma diversidade de linguagens artísticas e técnicas. Utiliza-se de materiais diversos, como partes de bonecos, spray, feltro, argila, entre outros: “ tudo pode ser transformado”. Sua formação em Educação Física e conhecimento do corpo, foi a base para experiências como coreógrafo. Entre esculturas, troféus, cenários, pinturas e desenhos, o artista autodidata é um inventor. Sua arte é um meio de expressar suas idéias e visão de mundos. Versátil, suas criações não se restringem à temática LGBT. Seus trabalhos são requisitados desde festas de formaturas, entregas de troféus comemorativos até concursos de beleza LGBT, entre outos.

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Mapeamento Cultural LGBT no Dedilhadas!

Na passagem por São Paulo, conversamos com as gurias do Dedilhadas. As fofas comentaram sobre nossa visita. Valeu, gurias!

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Parada de São Paulo: milhões de pessoas num corpo só

Caminhando pela Avenida Paulista, lá no seu início. O céu bastante carregado, confirmando a previsão de chuva. Uma capa de chuva providencial para tentar escapar do que não tinha como controlar, mas nada que assustasse ou impedisse que aquelas dezenas de pessoas seguissem em direção à concentração. Cada uma do seu jeito, procurando o melhor lugar. Alguns rapazes sem-camisa, alguns só de cueca. Algumas drags elaboradas, outras nem tanto. Garotas de gravata do arco-irís. Casais de todos os tipos, famílias de todos os formatos. Mulheres, homens. Ambulantes, policiais, seguranças, garis, produtores. Crianças, idosos, negros, indígenas, cadeirantes. Tudo e todos formando um mar de gente que se acumulava, se contrapondo de forma colorida ao aspecto cinzento do céu.

O primeiro trio elétrico encontrado, o número 15, indicava que ainda teríamos muito o que andar pra frente até encontrar nosso lugar. Centenas de noivas, super-heróis, pessoas vestidas de arco-irís. Bandeiras, máscaras, apitos. Guarda-chuvas coloridos para quebrar o cinza do dia.

Encontramos o carro, quase na hora da valsa. A tão esperada, mas nem tão organizada, valsa que lembraria que este era o dia em que a Parada iria debutar, junto a seus convidados, que já eram milhares. Subimos e olhamos para todos os lados. Para frente, para trás. O olhar não dava conta do que estava acontecendo. E muito menos do que iria acontecer.

Começa o som do Danúbio Azul, seguido de gritos, surpresas e muita emoção. Um flashmob que só funcionou quando a batida eletrônica invadiu a valsa e, neste instante, bailarinos e bailarinas procuraram seus pares ou dançaram sozinhos, numa grande euforia. O mau tempo era só o do clima: quem ameaçava a festa era só a chuva. Preparamos nossos trajes (capas de chuva) e seguimos neste que seria o maior baile de 15 anos do mundo.

O carro começa a andar na avenida. E o horizonte de gente colorida, por todos os lados, já se mostrava infinito aos olhos. E já éramos milhões num corpo só. Não que seja fácil compreender o que representa uma massa de milhões de pessoas, embora sua intensidade e força fosse algo vivenciado na pele.

Muitas músicas embalando pessoas nos trios, nas janelas, nas coberturas, nos camarotes, no chão. Caras felizes, cada uma a seu propósito: se divertir, protestar, brincar, ficar, beijar, manifestar, assistir, ou simplesmente, para mostrar que estava ali, ocupando a rua neste evento que, se não é o maior do mundo, com certeza é um dos mais surpreendentes.
E em meio a tudo isso, chove. E chove muito. E a festa não pára. A chuva mal espanta e, muito pelo contrário, parece que dá mais gás àquela multidão sem fim.

Ontem, Fizemos parte da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior manifestação política, cultural e social LGBT do mundo. Em sua 15ª edição, o evento teve a participação de mais de 4 milhões de pessoas, vindas de diversas partes do país e do mundo. A cada ano cresce e provoca uma intensa mobilização de toda a cidade para abrigá-la. A Parada de São Paulo é um fenômeno político e estético que leva milhões de participantes às ruas dando visibilidade a lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, que têm neste dia, a possibilidade de ocupar o espaço da cidade como qualquer cidadã ou cidadão. Traz à tona um sentimento de pertencimento e respeito que deveria se estender para outros dias, para outras avenidas, para outras cidades.

Sandro Ka e Ariane Laubin

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O dia foi das mulheres

Entre as atividades relacionadas à 15ª. Edição da Parada do Orgulho de São Paulo, participamos da 9ª. Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais, na Avenida Paulista. O evento organizado pela Liga Brasileira de Lésbicas – LBL/SP, contou com a participação de aproximadamente 3 mil pessoas, segundo informações da organização.

A manifestação se propõe a um formato reivindicatório e político, retomando um perfil mais aproximado das primeiras manifestações políticas organizados pelo movimento LGBT.

Mulheres de todos os tipos, raças e orientações sexuais, acompanhadas também por diversos homens, seguiram o caminhão de som. Entre uma músicas brasileiras e internacionais, militantes e representantes do movimento social, junto aos manifestantes, proclamavam informações e palavras de ordem sobre liberdades relacionadas ao gênero e à orientação sexual de mulheres lésbicas e bissexuais. Temáticas como Legalização do Aborto, Laicidade de Estado, Equidade de Gênero e Direitos Sexuais e Reprodutivos apareceram na forma de músicas, gritos de protesto, placas, cartazes e pirulitos e na voz de cada participante.

O ápice do evento, na Praça do Ciclista próximo à Consolação, contou com a apresentação de atrações artísticas como DJs , cantoras e grupos musicais, entre outras, ligadas ao universo da Cultura LGBT, focada no universo lésbico.
Ocupações de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, festivas ou de protesto, no espaço público são, por si só, atos sociais e políticos. Se complementam e cumprem o papel de dar visibilidade à existência desta população e na afirmação de seus direitos.

Como na cidade de São Paulo tudo pode acontecer em qualquer esquina, em uma delas encontramos as já mapeadas gurias do grupo de eletro-funk Sapabonde e conhecemos Samantha Reis e Roberta Salles, criadoras do videolog Dedilhadas. A conversa aconteceu nos bastidores da Festa Quentinha, organizada pelas também DJs, @dedilhadas.

Rô e Samantha - Dedilhadas

O videolog criado em agosto de 2010, está no 35º programa e com um acesso médio semanal de mais de 3 mil internautas.

O projeto nasceu da parceria de quase 10 anos de Samantha, formada em Rádio e TV com a jornalista Roberta. O canal Dedilhadas surgiu da idéia de se construir um espaço de informação e conversa sobre temas relacionados ao cotidiano de mulheres lésbicas. As criadoras afirmam que ainda hoje, há poucas referências e ídolos positivos para lésbicas, além do universo artístico, como na música. “É um grupo expressivo, mas parece que há uma certa neblina sobre o tema”, apontam.

Usando o suporte da internet, abordam em programas em torno de 10 minutos, assuntos como questões da vida cotidiana, política e relacionamentos, sempre de uma maneira informal. Periodicamente, pensam, discutem os temas e improvisam um estúdio caseiro, por onde expressam sua opinião para milhares de internautas destacando que “não são donas da verdade”, somente demonstram sua forma de pensar.

Reconhecem que, mesmo não propositalmente, fazem um tipo de militância pessoal, acreditando nos valores das pessoas além de quaisquer rótulos ligados à sexualidade: “ninguém se apresenta dizendo ‘prazer, eu sou fulano, eu sou gay’. Antes de ser sapatão, eu sou a Rô, sou a Samantha.” Na conversa, relataram algumas experiências em que o programa transformou a vida de seguidores, como no caso de um jovem gay que apresentou a sua mãe o vídeo “Recadinho aos pais! (dedilhadas21)” e com isso, melhorou sua relação com ela: assim como em uma escola de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, onde exibiram o mesmo vídeo em sala de aula, provocando discussão sobre o tema. Conversas francas e claras que contribuem para que a diversidade sexual não seja encarada como um tabu. De certa forma, passam a fazer parte da vida de muitas pessoas, mesmo que indiretamente, sendo vistas pelo público, muitas vezes, como se fossem amigas próximas.

O programa Dedilhadas pode ser acessado nos principais espaços de redes sociais, como Twitter, Facebook e Formspring.

Sapabonde

Após a entrevista, curtimos um pouco de seu som na pista do Dynamite Pub, e acabamos mais um dia de Mapeamento curtindo uma apresentação poket do Sapabonde.

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