OMS faz guia para enfrentar avanço da aids entre gays, destaca Folha de S. Paulo

Recomendações foram feitas por causa de aumento na taxa de infecção do HIV entre homens homossexuais
 A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou na última terça-feira, 21 de junho, pela primeira vez, diretrizes e recomendações para ampliar o tratamento e a prevenção da aids entre homens homossexuais e transexuais. Um dos motivos que levou à elaboração do relatório é a preocupação com o recrudescimento das taxas de infecção do HIV entre homens homossexuais, principalmente em países industrializados.

Com as diretrizes, a OMS pretende diminuir as barreiras impostas pelo estigma de ser homossexual, de forma que esse grupo tenha mais acesso aos serviços de saúde. Segundo um estudo publicado em 2009 no periódico “Annals of Epidemiology”, no qual a OMS se baseou, as taxas de infecção do HIV entre homens homossexuais em oito países, como EUA e Reino Unido, aumentaram 3,3% ao ano entre 2000 e 2005.

Entre 1996 e 2000, essa taxa havia caído 5,2% ao ano. Dados da OMS também mostram epidemias do vírus recém-identificadas entre homossexuais e transexuais em países como Bolívia, Jamaica, México, Tailândia, Trinidad e Tobago e Zâmbia. Na América Latina, estima-se que metade das infecções do vírus tenham origem em relações sexuais desprotegidas entre homens.

A organização afirma ainda que homens homossexuais têm 20 vezes mais chance de contrair HIV do que os homens heterossexuais.

Banalização
Para o infectologista Jean Gorinchteyn, o documento da OMS deve dar início a uma nova mudança da prática sexual entre esse grupo, da mesma forma registrada no início da epidemia da aids, na década de 1980. “Hoje há uma ideia distorcida de que a existência dos antirretrovirais dá direito ao sexo desprotegido, sem riscos, e houve uma banalização do uso do preservativo.”

Segundo Dirceu Greco, diretor do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, mesmo com a estabilização geral da epidemia há grupos mais vulneráveis que continuam com taxas altas, como os homossexuais, usuários de drogas e prostitutas.

Preconceito
Para a OMS, o estigma e a criminalização das relações homossexuais em muitos países são barreiras para o tratamento. Mais de 70 países criminalizam os homossexuais e transexuais, privando-os do atendimento médico.

As 21 recomendações do relatório são dirigidas a políticos, profissionais de saúde, organizações não governamentais e à comunidade. Entre as diretrizes, está a criação de leis e medidas contra o preconceito para proteger os direitos de homossexuais e transexuais, o uso de camisinha e a garantia do atendimento de saúde.

“Não podemos reverter a propagação da infecção por HIV no mundo se não forem atendidas as necessidades particulares desses grupos da população”, disse Gottfried Hirnschall, diretor do departamento de HIV/Aids da OMS.

De acordo com Greco, existe uma ideia de que a epidemia da aids está resolvida. “Mas ainda há mortalidade, preconceito e agressões a homossexuais”, afirma. Sexo anal traz dano aumentado para grupo
Há várias hipóteses para explicar o aumento das taxas de infecção do HIV entre homens homossexuais e transexuais.

Uma delas, segundo a OMS, é que esse grupo pode ter abandonado a camisinha por causa da maior expectativa de vida trazida pelos antirretrovirais. Segundo o infectologista Jean Gorinchteyn, há quem deixe de se proteger ao pensar que os medicamentos diminuem as cargas virais e também a transmissão do HIV.

“Mas menor chance não significa que não haja a transmissão. Há ainda o risco de pegar outras doenças sexualmente transmissíveis, e o contato com cargas virais maiores pode ser prejudicial à saúde.”

Além disso, práticas como sexo oral também podem transmitir a doença “”e nem sempre são feitas com preservativo. Há também a maior tendência à relação com múltiplos parceiros, documentada estatisticamente no caso desse grupo. O infectologista explica ainda que o sexo anal tem maior chance de transmissão porque nele há menos lubrificação, mais atrito e mais lesões, com ruptura pouco perceptível de vasos sanguíneos do ânus. Segundo a OMS, seja quais forem as razões para o aumento, está claro que, mesmo em ambientes de alta renda, o risco de transmissão reverteu a tendência de queda.

Fonte: Folha de S. Paulo

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