Estados Unidos: Festival de cinema LGBT de San Francisco teve início nesta quinta; conheça sua história

Por Suzy Capó*, de San Francisco para A Capa

Começou nesta quinta-feira (16) o 35º San Francisco International LGBT Film Festival. Mais conhecido como Frameline, nome da ONG que promove o evento, é o maior e mais antigo festival do gênero. Durante dez dias serão exibidos mais de 250 filmes, entre longas e curtas-metragens de todo o mundo para um público que pode chegar a 80 mil espectadores.

Apesar dos superlativos, o que torna Frameline um evento tão especial é a forma como ele constrói, fortalece e se alimenta da comunidade LGBT da cidade. O público local não apenas prestigia o evento, podendo lotar o majestoso Castro Theatre numa segunda-feira à tarde, como também contribui financeiramente para a existência da organização.

A primeira edição do evento foi realizada em fevereiro de 1977 num centro comunitário que já não existe mais, organizado por um grupo de cineastas. Naquela época havia apenas fragmentos do que hoje constitui uma cinematografia LGBT e todos os filmes exibidos eram em Super 8. Nos primeiros anos, o festival acontecia no Roxie Cinema, construído em 1909 e localizada no bairro latino Mission, vizinho do lendário Castro. Alguns anos mais tarde, a programação passou a ser dividida entre o Roxie e o Castro Theater, localizado a poucos metros do local onde Harvey Milk abriu uma loja de equipamentos fotográficos, na Castro Street.

Uma construção no estilo colonial espanhol, com uma fachada barroca, o Castro Theater comporta 1.407 pessoas. Para um cineasta que tem um filme no festival, é uma experiência inesquecível, como pode testemunhar o brasileiro Dácio Pinheiro que subiu ao palco do cinema ao lado da querida Claudia Wonder para a première mundial de seu documentário “Meu Amigo Claudia”.

O Frameline já passou por fases bastante difíceis ao longo de sua história, a pior delas certamente foi quando o então diretor do evento, Mark Finch, se suicidou jogando-se da Golden Gate Bridge, dizem que por causa de dívidas. Mas como tudo que caracteriza essa comunidade de San Francisco, com seu inacreditável espírito solidário e de sobrevivência, até mesmo esse episódio virou homenagem e símbolo de resistência, com o filme “The Joy of Life”, realizado por Jenni Olsen, então co-diretora do festival.

Talvez Frameline já tenha visto dias melhores, especialmente no que se refere aos recursos financeiros. Se ao longo dos anos 2000, o festival contou com a generosidade de patrocinadores de peso, muitos deles diminuíram drasticamente o valor do aporte financeiro. A Absolut, por exemplo, principal patrocinador do evento durante vários anos, fechou a torneira e no último ano que esteve com o evento, nem mesmo vodka fornecia para as festas, encontros e coquetéis que acontecem ao longo do evento, cujos últimos três dias coincidem com a realização da Trans Marc, Dykes March e do San Francisco LGBT Pride.

Mas hoje a noite é de gala no Castro Theater, com a projeção de “Gun Hill Road”, de Rashaad Ernesto Green, seguida de uma festa regada a SKYY vodka. Essa não é a première mundial do filme, que estreou no prestigiado festival de Sundance, em janeiro deste ano. Mas certamente depois dessa projeção o director e seu elenco vão entender por que festivais LGBT, e especialmente esse, continuam existindo e são tão importantes, tanto para os cineastas quanto para o público.

*Suzy Capó é presidente da Festival Filmes, primeira distribuidora de filmes de temática LGBT no Brasil.

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