Nota de repúdio: incêndio e lesbofobia no CTG

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CTG incendiado. Foto: Carlos Macedo

Nota de repúdio

O ato criminoso concretizado contra o CTG Sentinela do Planalto, centro de cultura gaúcha que abriu as portas para casamento coletivo onde um casal homossexual se propôs a participar, deixa latente o preconceito inerente à própria cultura tradicionalista, principalmente frente à diversidade sexual e de gênero. Não condenamos as práticas tradicionalistas gaúchas ou suas organizações, mas o SOMOS não pode se furtar de apontar atribuições que se mostram discriminantes e excludentes nessas culturas.

A história de discriminação de LGBTs pelos movimentos tradicionalistas não é recente. No Desfile Farroupilha de 2002 um cavalariço com a bandeira do movimento LGBT foi perseguido por outros membros do evento, atacado, agredido covardemente e expulso do evento. É sabido também que os CTGS, muitas vezes, se mantém como ambientes hostis e pouco acolhedores para pessoas LGBT, tendência essa que pode ser observada em textos como o de Ademir Canabarro sobre a entrada de homossexuais nesses locais (http://migre.me/lB7U7). Ao fim e ao cabo, a tradição invocada dessa forma se transforma em um ambiente agressivo à sexualidades e identidades de gênero diversas da que pauta o “gaúcho macho” e a “prenda delicada”.

Dessa maneira, enquanto movimento social, pensamos que é nossa atribuição questionar e criticar esses contextos excludentes e que continuam invisibilizando as diversas violências sofridas no dia a dia pelas pessoas LGBT. Também criticamos a maneira irresponsável na qual algumas instâncias da mídia estão se posicionando em relação a esse caso – como, por exemplo, o texto de David Coimbra na Zero Hora do dia 11/09/2014 (http://migre.me/lB7JB). Entendemos que caracterizar esse casamento como uma “provocação” aos movimentos tradicionalistas coloca as reais vitimas desse incidente como culpadas pelo mesmo, dinâmica social que é comum quando acontecem violências relativas ao gênero e à sexualidade.

Merece reflexão a necessidade de pautar a responsabilidade dos órgãos de Mídia acima e do próprio MTG quando, ao saber das ameaças de dano ao patrimônio, à vida da Juiza da Comarca de Livramento e ao casal de mulheres que se propôs a casar e exercer seu projeto de escolha e liberdade familiar, foram silentes, omissos e até mesmo coniventes com as violências propostas, como no caso do Jornalista Kenny Braga, que afirmou que “[…]se a Diretora do Fórum insistir com isso, eu sugiro a Magistrada que ela leve o casamento para sua cidade, para um CTG da sua cidade, ou que ela faça o casamento na casa dela, mas no CTG ela não vai fazer. E acabou com essa frescura” e “Eu interferi naquela bagunça. Não sai casamento nenhum. Estou dando a informação: Não tem casamento nenhum lá. pode ter em qualquer outro lugar, mas no CTG não vai ter” no programa “Sala de Redação” do dia 6 de setembro de 2014 (http://migre.me/lB9ng), demonstrando abertamente uma postura homofóbica, ameaçadora ante a diversidade sexual e de gênero, e, devido à sua posição como comunicador, antiética e potencialmente violenta.

Não queremos, enquanto movimento social que luta pela diversidade sexual e de gênero, que as práticas tradicionalistas de nosso estado sejam extintas ou proibidas. Ao contrário, compreendemos que essa cultura tem muito a se beneficiar com a entrada das discussões e indivíduos LGBT nesses ambientes. Poder pensar em um movimento tradicionalista inclusivo, plural e aberto à toda população, que preze pelo respeito e segurança de todas e todas é medida que não devemos nos furtar em realizar.

Por meio dessa nota, oferecemos também toda a solidariedade, apoio, suporte e necessária assistência às mulheres que também foram vítimas dessa imensurável violência, e que até o presente momento ficaram invisibilizadas e deixadas à margem, merecendo atenção e proteção para que nada aconteça, em mais um triste episódio de ignorância e preconceito no Rio Grande do Sul.