“Hoje eu quero voltar sozinho” e as minorias na mídia

hojeCom um protagonista cego e gay que não é definido por essas características, obra de Daniel Ribeiro mostra a importância de papéis como esse na televisão e no cinema

Por Mariana González – jornalista e crítica de cinema no site CinemAqui

Em 2010, o curta Eu Não Quero Voltar Sozinho conquistou público e crítica e causou sensação em festivais de cinema no mundo todo, inclusive na primeira edição do CLOSE – Festival Nacional de Cinema da Diversidade Sexual, onde levou sete prêmios. Agora, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, a versão longa-metragem da história de um adolescente cego que se apaixona pelo garoto novo na escola, recheia a narrativa com outras situações comuns da idade, como a busca pela independência e a vontade de sair de casa.

Para o público LGBT, não é fácil encontrar na mídia brasileira um(a) personagem com quem ele possa se identificar, que leve suas experiências e histórias para a televisão ou cinema. Nas novelas, personagens gays ou são estereótipos em papéis coadjuvantes, como o Crô (Marcelo Serrado) de Fina Estampa (que ganhou um filme), ou pessoas reprimidas ou descobrindo sua sexualidade, que é motivo de drama – como o Félix (Matheus Solano) de Amor à Vida ou, atualmente, a Clara (Giovanna Antonelli) de Em Família. Claro, situações dramáticas acontecem a qualquer personagem em uma novela, e Félix, por exemplo, conquistou o público de tal forma que passou de vilão a protagonista com direito a final feliz e o primeiro beijo gay em uma novela do horário, e era um personagem complexo e não definido apenas por sua sexualidade. O par romântico de Félix, por exemplo, Niko (Thiago Fragoso) era abertamente gay desde o início da novela, e sua sexualidade não era a origem de seus dramas – e é esse tipo de personagem, especialmente em papéis protagonistas, que faltam na mídia, e não só no Brasil.

Assim, é muito bem-vindo um filme como Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, que retrata um período na vida de qualquer um que é, naturalmente, de descobertas, mas que não diferencia os sentimentos de Leonardo (Ghilherme Lobo) dos de sua melhor amiga, Giovana (Tess Amorim), que é hétero. O que Gabriel (Fábio Audi) desperta no garoto é novo, é intenso, é assustador – como o primeiro amor costuma ser. Leonardo nunca demonstrou um interesse particular em nenhuma garota, como Giovana atesta logo na primeira cena, e descobrir-se interessado em um garoto, para ele, não é um choque, um obstáculo, ou um grande questionamento. Seu primeiro amor não tinha acontecido e, ao conhecer e se aproximar de Gabriel, aconteceu.

Isso não quer dizer – e é aqui que o diretor e roteirista Daniel Ribeiro acerta – que o filme esqueça que vivemos em uma sociedade conservadora, homofóbica e heteronormativa. Quando Leonardo revela seus sentimentos para Giovana, ela declara: “Nunca pensei em que você desse jeito”. O gesto de Leonardo que encerra o longa, quando ele deixa de segurar o braço de Gabriel e eles seguem andando de mãos dadas, é uma imagem forte e politizada.

Mas não é só por sua orientação sexual que Leonardo é uma minoria: o jovem nasceu cego. Ao contrário de sua sexualidade, sua deficiência física é, sim, algo notado pela narrativa – ele sofre bullying de um grupo de colegas e, ao perceber que até então não teve acesso a várias coisas comuns a seus amigos, como andar sozinho na rua ou mesmo participar de uma viagem com a escola, vê sua cegueira como um obstáculo.

A situação das pessoas com deficiência na mídia também é frágil, e agravada pelo fato de que muito raramente personagens com deficiência são interpretados por atores com aquela característica. Aqui não é diferente: Ghilherme Lobo não é cego. Sexualidade não é manifestada de forma física, o que permite que atores interpretem personagens com uma orientação diferente da sua sem problemas. Já atores com deficiência física ficam limitados a interpretar personagens com a mesma deficiência, o que já é difícil pelo pequeno número desses personagens, e praticamente impossível considerando que eles dificilmente vão para atores realmente deficientes. Da mesma forma, atores e atrizes trans encontram dificuldade para arranjar trabalhos de destaque (quem dirá papéis complexos e não-baseado em estereótipos), já que os realizadores dão preferência a atores cissexuais – algo que Hollywood, por exemplo, adora e costuma premiar, como recentemente a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas fez ao entregar o Oscar de melhor ator coadjuvante a Jared Leto por seu trabalho no papel de uma travesti em Clube de Compras Dallas. Como um ator anão poderá trabalhar se um filme como Branca de Neve e o Caçador, por exemplo, prefere diminuir digitalmente atores de altura regular do que contratar anões? Em 2012, Colegas foi o primeiro longa-metragem brasileiro protagonizado por pessoas com Síndrome de Down.

Pelo menos (o que não justifica a decisão), Ghilherme Lobo faz um belo trabalho e realiza gestos rotineiros a deficientes visuais, como andar por sua casa sentindo as paredes e tropeçar quando o amigo esquece de avisar sobre um degrau, com naturalidade. Este seria um grande papel para um ator cego, que raramente tem a oportunidade de participar de uma obra que ganhe tanto destaque, interpretando um personagem que não é definido por sua deficiência. Leonardo pode encontrar mais dificuldades e ansiar mais por independência e liberdade do que seus amigos, mas aqueles sentimentos são comuns a qualquer adolescente. O protagonista é um garoto introvertido, não muito ligado a festas, amante de música clássica. Seu isolamento social – antes de Gabriel, ele só andava com Giovana – não são resultado da frieza de seus colegas ou de discriminação, mas de sua personalidade.

A suavidade e a doçura do longa de Daniel Ribeiro fazem com que a falta de grandes cenas de beijo ou de uma transa entre o casal não seja motivada por covardia, mas simplesmente porque não se encaixam na estética e na proposta do filme. Assim como Azul é a Cor Mais Quente, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não é apenas uma história de amor entre um casal gay (apesar de este ser uma parte importantíssima de ambas as obras), mas o retrato de uma figura marginalizada que é muito mais do que as características que a definem como minoria. Pessoas marginalizadas precisam poder ver-se na televisão e no cinema não apenas passando por experiências como a dificuldade de se relacionar em um mundo que frequentemente ignora pessoas com deficiência ou a saída do armário, mas através de personagens variadas, multidimensionais e complexas como elas mesmas são.