Uma casa para Zuzu Angel

Depois de formado o Colegiado da Moda, órgão dentro do Ministério da Cultura, no fim do ano passado, projetos do setor que permaneciam dentro de gavetas devem ir aos poucos tomando forma. É o caso do Museu da Moda, idealizado pela jornalista Hildegard Angel, filha de uma das personalidades mais importantes da história da moda do país, a estilista Zuzu Angel (1921-1976). A Casa da Marquesa de Santos, localizada no bairro carioca de São Cristóvão, está prometida para ser a sede da instituição. Em fevereiro, a Secretaria do Estado do Rio de Janeiro assinou um protocolo de intenções a fim de disponibilizar a construção de 1826, em estilo neoclássico, para o acervo do Instituto Zuzu Angel, fundado por Hildegard em 1993: “Agora existe uma ação pública efetiva para a criação do museu”.

Previsto para ser inaugurado no fim de 2012, o projeto vai disponibilizar ao público cerca de 300 peças de Zuzu, uma das pioneiras na busca por um estilo genuinamente nacional na moda. A mineira inspirava-se nos temas regionais e no folclore brasileiro, o que se refletia em roupas com chitas, rendas, fitas, pedrarias e conchas. Depois da morte do filho, o militante político Stuart Angel Jones, em 1971, ela comprou briga com a ditadura e fez uma coleção que explicitava sua indignação, com estampas de manchas de sangue, instrumentos bélicos, pássaros engaiolados e anjos amordaçados. Exibidas em um desfile-protesto na residência do cônsul do Brasil em Nova York, no mesmo ano, as peças colocaram a estilista na mira dos militares. Sua morte em um acidente de carro é até hoje mal explicada.

Na época, a filha Hildegard tinha 26 anos. Há pelo menos mais 20, a jornalista empenha-se em criar o museu em homenagem à mãe. Para reunir novamente as roupas assinadas por Zuzu, ligou para antigas clientes, foi atrás de fábricas e costureiras, colocou anúncios na seção de classificados dos jornais e até divulgou notas nas colunas sociais. O esforço adiantou. “Eu era surpreendida por caixas com doações”, diz. Enquanto o museu não abre, o acervo fica embrulhado em papel de seda e mantido dentro de embalagens especiais, feitas sem grampos e colas para os tecidos não se deteriorarem.

Além de exibir as coleções de Zuzu Angel, o novo Museu da Moda terá peças de grifes estrangeiras, como a francesa Yves Saint Laurent e a italiana Valentino, doadas pela socialite Carmen Mayrink Veiga. Entre as mais de mil indumentárias da instituição, destaca-se um vestido creme com o corpo todo bordado com pérolas que pertenceu à princesa Diana. A peça foi adquirida em um leilão da Christie’s em Nova York, em 1997, por 57 mil dólares. O museu será administrado em uma parceria entre o estado do Rio e o Instituto Zuzu Angel e em breve deve se beneficiar da Lei Rouanet, o que é possível agora graças ao reconhecimento da moda como cultura por parte do governo federal. Por enquanto, a Casa da Marquesa de Santos é que começa a ser reformada. A Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro só aguarda a liberação da verba – já aprovada – de seis milhões de reais, que virá do BNDES, o Banco Nacional do Desenvolvimento, para o início das obras.

Fonte: revista Bravo

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