Elas têm a força

Há cinco anos, zapeando a TV, o fotógrafo carioca André Arruda parou na transmissão de um campeonato de bodybuilding.

Embora nunca tenha se interessado por tal esporte, se viu fascinado com o visual das competidoras. E ficou curioso sobre como, afinal, seres de natureza tão frágil chegavam a um grau tão alto de desenvolvimento muscular.

Ao mesmo tempo, ficou interessado no olhar da sociedade sobre elas. Como sempre fotografa mulheres, foi atrás das atletas brasileiras. O resultado é a exposição Fortia Femina – Aceitação e Preconceito, que estará no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio, a partir do dia 24 de junho.

Nas fotos, as fisiculturistas aparecem como vieram ao mundo (embora bem mais fortes). O resultado é, no mínimo, desconcertante. A primeira impressão é de que há alguma coisa, de fato, fora da ordem. Depois, ao apurar o olhar da diversidade, é possível perceber o valor da bela fotografia e estender a mente para o que pode estar por trás dela. “A beleza feminina é um campo magicamente vasto e absolutamente onírico, onde cabe desde a magreza delgada top model até a atleta musculosa”, diz o fotógrafo.

Segundo Arruda, o que elas buscam é a “perfeição” – o que causa estranhamento pelas referências tão diferentes das nossas, simples mortais. É entre as duas palavras que formam o sutítulo da exposição – aceitação e preconceito – que vivem essas mulheres. Em busca de mais detalhes sobre o projeto e sobre elas, falei com o autor:

O que mais lhe interessa neste trabalho?
Além do inegável apelo visual, me interessei pelo diálogo social que esses corpos femininos proporcionam. A mudança voluntária do corpo é um exercício de identificação e aceitação, de inserção social. O corpo hipermuscular, sempre em mutação, busca volume, simetria e forma; é incessante o trabalho físico em busca da forma muscular ”perfeita”. Paradoxalmente, essa transformação se traduz em estranhamento da maior parte das pessoas, que associam o corpo hipermuscular feminino à masculinidade ou em abandono do ethos da fêmea. Esse constraste entre aceitação e preconceito se tornou o conceito entre luz e sombra que define o ensaio.

O que você aprendeu sobre essas mulheres?
Todos nós queremos ser aceitos. Todos. Vivemos numa sociedade da imagem e essa sociedade, sempre me lembro disso, é descendente direta dos gregos: idolatram-se deuses que têm a beleza e desempenho como referência. Os deuses atuais são os artistas de cinema, de tv, os famosos. Penso que essas atletas buscam a diferença, querem uma luz diferente sobre elas, querem destaque. E a musculação é um constante diálogo-desafio com o espelho, onde o corpo sempre está progressão, em mutação; sempre se quer um deltóide maior, um adutor mais definido ou panturrilhas mais e mais desenvolvidas. Elas buscam não apenas os signos de força, como braços e torsos hipermusculares, mas também acentuar ao máximo as formas femininas, como bunda e pernas. Elas objetivam, como em qualquer esporte, a vitória, e isso talvez seja o mais fascinante, pois o bodybuilding no Brasil é um esporte quase marginal, de gueto, os prêmios são ridículos, o preconceito é fortíssimo e mesmo assim elas seguem em frente. Das 11 modelos, apenas duas não são treinadoras de musculação.

Foi difícil convencê-las a posar nuas?
Sim. O estereótipo do fotógrafo conquistador infelizmente é muito forte, algumas têm muito medo de aparecer e muitas moças acham que vão ter cachês de revistas masculinas dos anos 90, etc. O Orkut foi importantíssimo: conheci praticamente todas as atletas nessa rede social, antes da explosão popular. E o meu site, o meu portfolio online, legitimou o trabalho. Como fotografei atletas sérias, com destaque em suas áreas e que se conhecem, foi uma progressão natural. As primeiras fotos aconteceram em 2004 e só no inicio de 2009 encerrei o trabalho. A edição final do ensaio tem 87 fotos e deverá ser editada em livro.

Os homens gostam dessas mulheres tão fortes?
Há uma enorme rede de adeptos e fãs de mulheres fortes, desde as ”saradas”, em que a Madonna seria um exemplo, com baixíssimo percentual de gordura e boa definição muscular, até os fãs das bodybuilders pesadas, como a carioca Ana Claudia Macedo, umas das atletas do ensaio. A beleza feminina é um campo mágicamente vasto e absolutamente onírico, onde cabe desde a magreza delgada top model até a atleta musculosa.

Fonte: Época on line

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *